Dirceu, igual e diferente numa audiência penal

Repórter do Estado relata com exclusividade como foi audiência do ex-ministro da Casa Civil junto com outros condenados, antes de ir para casa onde passou a cumprir prisão domiciliar

BEATRIZ BULLA, Estadão Conteúdo

04 de novembro de 2014 | 17h41

Brasília - Sentado, sozinho, no centro da sala de audiências. Olhos na tela do celular. Assim José Dirceu aguardava o momento da liberação oficial para cumprir em casa o restante da pena por corrupção ativa no esquema do mensalão. Passar pela audiência na Vara de Execuções de Penas e Medidas Alternativas (Vepema)  é obrigatório para os condenados que têm direito à progressão de regime. Era o caso do ex-ministro chefe da Casa Civil, e também dos outros sete condenados que sentavam lado a lado ao fundo da sala, a duas fileiras de distância daquele que chegou a ser um dos homens mais poderosos do governo.

A cena dizia: Dirceu era diferente. Com blazer azul escuro, calça jeans e camisa social, chegou acompanhado do criminalista José Luis Oliveira Lima, cerca de dez minutos antes do horário marcado para início - 13h30. Sentou isolado, mais próximo à mesa do juiz. Fitando-o com os olhos, outros sete condenados chegaram sozinhos. Alguns usavam chinelos. Entregaram papéis aos agentes presentes na Vara, sem advogados nem defensores públicos.

A audiência foi fechada. Só advogados dos presos puderam participar. Ou seja, os dois integrantes da defesa de Dirceu. Por volta das 14h, ainda eram aguardados outros condenados que viriam direto da penitenciária. Os "roupa branca", explica uma senhora que aguardava a audiência.

Do lado de fora, um homem esperava a saída do irmão, condenado por homicídio - mas ele não usa essa palavra, prefere dizer que o parente foi "dar o troco" e passou 10 anos e 11 meses atrás das grades. Uma sobrinha de 13 anos esperava o tio. Do mesmo lado de fora, no térreo, mais de uma dezena de jornalistas e cinegrafistas aguardavam José Dirceu.

Ele cumpriu cerca de 11 meses de pena até ter direito à prisão domiciliar e sabe há pelo menos uma semana da autorização para progressão de regime, deferida na terça-feira passada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal, Luís Roberto Barroso.

A audiência é conjunta entre condenados e condenadas. Elas ficam na lateral. Antes de entrar, uma das presas lamentava ter sido informada só naquele dia que seria liberada. Não teve tempo de se arrumar e não foi junto com as colegas. "Cheguei sozinha, direto do trabalho, mas queria mesmo era ter vindo com o bonde", reclama. De unhas rosas e asas tatuadas nas costas, não sabia que iria dividir a sala de audiência com Dirceu.

Familiares de um dos condenados foram informados que "também era o dia dele". "Ele chega que horas?", questionou uma mulher sobre o ex-ministro, poucos segundos após José Dirceu passar por ela. "Lembro do nome, não me lembro do rosto", se explicou, sem reparar no homem mais magro e com cabelos mais brancos do que na época de governo.

Durante a audiência, Dirceu era igual. O juiz da Vepema entrega aos condenados um papel com as condições para a manutenção da progressão de regime. A cartilha azul orienta os presos a comparecer bimestralmente em juízo, a obter ocupação lícita e dá outras instruções, além de trazer um calendário com as datas a obedecer.  Se descumprir as regras, o benefício é cassado.

Condenados em regime domiciliar devem "evitar desentendimentos com familiares e estranhos", orienta a cartilha. Talvez também por isso o ex-ministro tenha saído sem responder jornalistas ou provocações de apresentadores de programas humorísticos.

Dirceu entrou na Vepema aos gritos de "ladrão", por populares que passavam na rua. Na saída, a recepção foi melhor. Embarcou em uma SUV preta com um sonoro "vai com deus, ministro" dito por um homem que pedia emprego na região. A partir desta terça-feira, 4, Dirceu pode dormir em casa.

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