Dirceu evita comentar fim do julgamento e pede respaldo para Marco Maia

Ex-ministro da Casa Civil participou de evento em São Paulo ao lado de José Genoino

Fernando Gallo e Isadora Peron, de O Estado de S. Paulo,

17 de dezembro de 2012 | 22h44

O ex-ministro da Casa Civil José Dirceu e o ex-presidente do PT José Genoino evitaram comentar nesta segunda-feira, 17, o fim do julgamento do mensalão e a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de cassar os mandatos dos parlamentares condenados no caso. Ambos participaram de um evento em São Paulo para discutir o julgamento, mas não compuseram a mesa de debate e nem se pronunciaram.

"Não posso comentar decisão do Supremo", afirmou Dirceu em breve fala na chegada, a respeito da cassação dos mandatos. Contudo, afirmou que voltará a falar sobre o julgamento no ano que vem. "Depois do Natal, do ano novo, das festas de fim de ano, vou dar muita entrevista. Vocês vão cansar de me ouvir. Até lá, vou descansar." Ao entrar no sindicato dos Engenheiros de São Paulo, no centro da cidade, ouviu o coro de "ô Zé Dirceu, vou te dizer, democracia deve muito a você". Cumprimentou várias pessoas e sorriu bastante. Sentou-se na primeira fila e ficou até o fim do debate.

Na saída, comentou com Ari Sérgio, militante petista, "agora o importante é reforçar o Marco Maia e depois é ir para a rua", disse, referindo-se ao presidente da Câmara dos Deputados. Maia tem reiterado que a Casa pode não acatar a decisão do Supremo quanto à perda dos mandatos.

Genoino também não falou. Desejou "boa sorte" aos jornalistas e afirmou que havia comparecido ao evento somente "para ouvir". Ele também não quis comentar a decisão do Supremo sobre os mandatos parlamentares. O ex-presidente do PT é suplente de deputado e deve assumir vaga na Câmara dos Deputados em janeiro.

Dirceu. Depois de fortes declarações sobre o julgamento - ele chegou a dizer que "estava marcado para morrer" - Dirceu decidiu evitar polêmicas e rearranjar seu discurso para atacar questões mais técnicas do julgamento. Foi alertado por assessores de que ao fazer falas fortes teria facilidade para ganhar as manchetes, mas dificuldade para discutir o mérito do julgamento na imprensa.

Um dos temas que pretende abordar daqui para frente é uso de dinheiro público para irrigar o esquema. O STF entendeu que foi esse o tipo de recurso usado para comprar o apoio da base aliada no Congresso durante o primeiro mandato do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Para os petistas, há comprovações de que os R$ 73,8 milhões do fundo Visanet foi utilizado em diversas ações de publicidade, e não desviado.

Desde o fim de novembro, depois de o STF aplicar uma pena de quase 11 anos a Dirceu, o ex-ministro tem participado de eventos de desagravo ao julgamento. Além desse e de outro ato em São Paulo, o ex-ministro também foi a manifestações em Osasco, organizado pelo também condenado João Paulo Cunha (PT-SP), em Curitiba, Guarulhos e Porto Alegre. Em Brasília, participou de reuniões privadas onde recebeu apoio de petistas.

Outras manifestações. Sem os pronunciamentos de Dirceu e Genoino, coube a simpatizantes petistas proferir fortes críticas ao Supremo. Compuseram a mesa do debate, organizado pelo Centro de Estudos da Mídia Barão de Itararé, o escritor Fernando Morais, o ator José de Abreu, os jornalistas Paulo Moreira Leite e Raimundo Pereira, além dos professores de Direito da PUC-SP Pedro Serrano e Cláudio Langroiva.

Fernando Morais afirmou esperar que a Câmara vá de encontro ao Supremo quanto à cassação dos mandatos dos parlamentares condenados no mensalão. "Nossa esperança é que o parlamento resista a essa tentativa de usurpação de seus poderes", afirmou.

Pedro Serrano também criticou a decisão, que disse ser "contra a letra de qualquer livro de Direito Constitucional". "Foi uma irresponsabilidade o que foi feito no tribunal. A Constituição como valor foi desrespeitada."

Serrano também afirmou que o julgamento, no plano do Direito Constitucional, "foi uma catástrofe". "Parece aqueles processos da era stalinista em que o sujeito já entrava sabendo o resultado do processo." Em seguida, fez uma pausa, olhou para Dirceu e disse: "Desculpa, Zé". A plateia deu risada, pois o ex-ministro tem formação stalinista.

Em uma espécie de desagravo a Dirceu, Paulo Moreira Leite questionou o fato de o STF ter condenado o ex-ministro por formação de quadrilha. Lembrou que uma das acusações que pesavam contra o petista era a de ter ajudado o empresário Marcos Valério e o Banco Rural a arrematarem o Banco Mercantil de Pernambuco, o que nunca foi feito. "Que m... de chefe de quadrilha era esse?"

Defesa a Lula. Antes do início do ato, mais de 20 integrantes da União da Juventude Socialista (UJS) - que tem em suas fileiras muitos filiados ao PC do B -, fizeram uma manifestação em frente ao auditório do evento em defesa ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Cantando palavras de ordem como "eu tô com Lula, a mais de mil, pra defender democracia no Brasil", eles protestaram contra as novas denúncias do empresário Marcos Valério envolvendo o ex-presidente no mensalão. A campanha já estava acontecendo  na internet desde o fim de semana. Os jovens também questionaram o fato de o STF ter decidido pela perda de mandato dos deputados condenados no julgamento:  "Cada poder tem seu lugar, o STF não pode legislar".

No evento, o ator José de Abreu também defendeu Lula. Dizendo-se preocupado com "a volta da delação como um ato eticamente perfeito", sustentou que o ex-presidente não precisaria se defender porque a militância de esquerda o faria. "O presidente Lula não vai precisar sair do Instituto Lula. Quem vai defendê-lo somos nós! O Lula é meu amigo, mexeu com ele, mexeu comigo."

Tudo o que sabemos sobre:
mensalãoJosé Dirceu

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.