Dirceu coloca julgamento do STF sob suspeita

Ex-ministro cita conversa telefônica de ministro do Supremo e critica divulgação de diálogos por e-mail

Elizabeth Lopes, da Agência Estado,

30 de agosto de 2007 | 12h44

O ex-ministro José Dirceu colocou nesta quinta-feira, 30, sob suspeita o julgamento do Supremo Tribunal Federal (STF) que abriu ação penal contra os 40 denunciados no esquema do mensalão e disse temer pelo resultado final do seu processo junto à Corte no futuro. Em entrevista coletiva, na qual se defendeu das acusações, Dirceu disse que a divulgação da conversa telefônica do ministro do Supremo Ricardo Lewandowski, publicada no jornal Folha de S. Paulo nesta quinta-feira, 30, afirmando que os ministros do Tribunal votaram com a "faca no pescoço" por conta da pressão da imprensa coloca "no mínimo o julgamento do STF sob suspeição".  O ex-ministro disse ainda que desistiu de fazer um campanha para pedir a anistia da cassação do seu mandato de deputado federal, ocorrida no final de 2005 em função do escândalo. Na última terça-feira, o tribunal encerrou a análise da denúncia contra 40 acusados de envolvimento no esquema do mensalão, incluindo Dirceu, tornando todos eles réus. E Dirceu responderá pelos crimes de corrupção ativa e formação de quadrilha. Veja também: Especial: quem são os 40 do mensalão e de que crimes são acusados Segundo o ex-ministro, além da divulgação dessa conversa telefônica existe também um outro fato grave, que foi a divulgação de conversas por e-mail entre Lewandowski e a ministra Cármen Lúcia. "Estou perplexo, estupefato e quase entrando em pânico", destacou Dirceu a respeito desses episódios. Dirceu afirmou ainda que tudo isso não pode simplesmente passar em branco, questionando que precisa da garantia de que terá um julgamento justo. O ex-ministro da Casa Civil disse que espera um pronunciamento do STF a esse respeito. "Este caso é muito grave", disse ele, numa referência específica à divulgação da conversa telefônica do ministro. Na avaliação de Dirceu, essas situações devem ser esclarecidas. "Eu temo pelo meu futuro, quero um julgamento justo. No mínimo, o julgamento do STF está sob suspeição", voltou a dizer.  Inocência Na entrevista coletiva, Dirceu voltou a dizer que é inocente das acusações que lhe foram feitas. "Não roubei, não deixei roubar e nem cometi nenhuma irregularidade", argumentou. O ex-ministro disse estar com a consciência tranqüila e acredita que será absolvido nesse processo. "A aceitação da denúncia não é julgamento", emendou ele, destacando que deseja que o julgamento aconteça o mais rápido possível. Em sua defesa, Dirceu citou que já sofreu uma devassa. " A Receita Federal, inclusive, já me entregou um atestado de honestidade em abril deste ano." Na sua avaliação, não existem provas de participação em atos ilícitos.  Crítica Durante a entrevista, Dirceu voltou a criticar a mídia, dizendo que o País vive uma ditadura dos meios de comunicação. E voltou a pregar uma regulação e concorrência para o setor. Ele disse que não quer o apoio do PT e do governo nesse seu processo. "Eu posso responder voto a voto de cada ministro do Supremo com os elementos que estão nos autos", observou. Ele disse que o PT já pagou um preço político por esse episódio. E disse que o partido dos tucanos, o PSDB, também já esteve envolvido em denúncias de corrupção no passado. "Talvez mais graves do que essa." Ainda na entrevista coletiva, Dirceu disse que continuará lutando para que o PT faça maioria na Câmara e no Senado nas próximas eleições. E disse confiar num candidato combativo nas próximas eleições. " Defendo que o PT se renove, incluindo suas direções". Ao se referir ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Dirceu comentou: "Felizmente o Lula é maior do que o PT." O advogado do ex-ministro, José Luiz Oliveira Lima, também presente à entrevista coletiva, disse que no momento adequado a matéria sobre o teor da conversa telefônica do ministro Lewandowski poderá ser anexada à defesa de Dirceu. Segundo Dirceu, se fatos como estes (divulgação de e-mails e da conversa telefônica do ministro Lewandowski) tivessem ocorrido em outro país, o julgamento poderia até mesmo ter sido suspenso.  Mensalão O esquema do mensalão - pagamento de uma suposta mesada a parlamentares para votarem a favor de projetos do governo - foi denunciado por Roberto Jefferson, então deputado pelo PTB e presidente da legenda, que acabou sendo cassado por conta de seu envolvimento. Segundo ele, os pagamentos mensais chegavam a R$ 30 mil e o esquema de repasse do dinheiro era feito através de movimentações financeiras do empresário Marcos Valério. Dos acusados de envolvimento no esquema, foram cassados José Dirceu, Roberto Jefferson (PTB-RJ), que denunciou o mensalão, e Pedro Corrêa (PP-PE). Quatro parlamentares renunciaram para fugir do processo e 11 foram absolvidos. Agora, após decisão do STF, todos estão no banco dos réus e, segundo previsão de juristas, uma condenação pode demorar até cinco anos.  (Com Reuters)

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