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Dinheiro, estrela e voto

É nas urnas que a estrela petista corre mais risco de virar nebulosa

José Roberto de Toledo, O Estado de S.Paulo

19 de setembro de 2016 | 03h00

É nas urnas que a estrela petista corre mais risco de virar nebulosa. No conjunto das disputas eleitorais em todo o Brasil, o PT lançou menos candidatos a prefeito, suas alianças encolheram e seu tempo de propaganda minguou. Junto com tudo isso, um mês de prestações de contas de campanha revela que as candidaturas do PT empobreceram tanto ou mais que seu eleitorado. Nada é mais importante que dinheiro numa eleição.

Por enquanto, o PT é apenas o sétimo partido em arrecadação eleitoral. Está atrás de siglas como PDT, PSD e PP. Líder do ranking provisório, o PMDB arrecadou três vezes mais que o PT até agora. O PSDB, 175%. O PSB, 66% a mais. Mesmo na arrecadação proporcional ao número de candidatos a prefeito, os petistas continuam em sétimo lugar (e o PMDB segue em primeiro).

Em 2012, ano em que o partido elegeu mais prefeitos na sua história, o PT foi campeão de arrecadação. Superou em quase R$ 30 milhões o PMDB, que tinha 521 candidatos a mais. Como consequência de seu sucesso eleitoral, os petistas avançaram sobre a base de poder municipal do aliado. Isso alimentou rancores que foram se refletir na Câmara dos Deputados.

O conflito municipal entre PT e PMDB alimentou nos anos seguintes à eleição de 2012 lideranças peemedebistas que se opunham ao avanço petista. Eduardo Cunha aproveitou esse ambiente para se tonar o principal porta-voz da reação. De líder dos insatisfeitos, virou líder do PMDB e pulou dali para a presidência da Câmara. O desfecho da história é conhecido.

O troco do PMDB continua, porém. Alavancados pelo poder federal que herdaram - ou tomaram, escolha o verbo - do PT, os peemedebistas buscam reconstruir em 2016 a hegemonia municipal que os mantêm no centro político do País desde o fim da ditadura. Os dados de arrecadação revelam que estão indo bem - mesmo onde as pesquisas de intenção de voto não mostram seus candidatos nem perto da liderança, como no Rio de Janeiro. 

Perder capitais importantes como o Rio ou São Paulo é um baque para qualquer partido. Mas não é das metrópoles que as agremiações se alimentam. É das centenas, quando não milhares de pequenas e médias máquinas administrativas municipais. Prefeitos são os principais cabos eleitorais dos deputados federais. E isso está na raiz de todo o poder e influência partidários.

Por seu protagonismo na eleição da bancada federal de qualquer grande partido, a quantidade de prefeitos eleitos determina indiretamente o tempo de propaganda que PMDB ou o PT vão usar ou negociar na eleição presidencial, impacta o tamanho da fatia a que terão direito no Fundo Partidário, influi em quantos ministérios, estatais e CPIs comandarão no futuro. O novo ciclo de poder que começa em 2 de outubro terá reflexos até 2022.

Nos últimos dias falou-se muito de Lula, de procuradores e juízes, mas na fria contabilidade eleitoral só três fatores contam de fato: popularidade do incumbente, tempo de propaganda na TV e rádio e, mais do que tudo, dinheiro para as campanhas. 

Um prefeito muito bem avaliado tem alta chance de se reeleger. Mas aprovação acima de 60% é rara hoje entre petistas. O tempo de TV depende do tamanho das coligações: quanto mais partidos, mais segundos de exposição para o candidato. Mas os escândalos, encarceramentos e, sobretudo, o empobrecimento do PT afastaram os aliados dos petistas. Como em qualquer casamento por interesse, acabou a grana, acabou o relacionamento.

Se a abundância de dinheiro fez o PT lambuzar-se de poder, as  prestações de contas eleitorais sugerem que sua escassez vai afastar de vez o partido do protagonismo político que encena desde 2002. O novo papel da estrela petista será conhecido em duas semanas: pode virar anã branca no centro de uma nebulosa, explodir como supernova ou ser engolida por um buraco negro.

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