Dinheiro da propina é do Opportunity, diz lobista

Chicaroni disse à PF que funcionários do grupo levaram R$ 865 mil a ele

Eduardo Reina, O Estadao de S.Paulo

26 de julho de 2008 | 00h00

O dinheiro apreendido no apartamento do lobista Hugo Sérgio Chicaroni, que seria utilizado para subornar um delegado da Polícia Federal, é do Grupo Opportunity. A afirmação é do próprio Chicaroni, em depoimento à PF. A confissão serviu de base para a denúncia feita pelo Ministério Público Federal, assinada pelo procurador Rodrigo de Grandis. Os R$ 865 mil foram levados à casa do acusado por "algumas pessoas ligadas ao Grupo Opportunity" e "deveriam ser entregues ao delegado Vitor Hugo (Rodrigues Alves Ferreira)". Havia suspeita de que o dinheiro tivesse como origem o investidor Naji Nahas.Chicaroni disse também à PF que "quem coordenou a entrega dos valores foi uma pessoa de nome Humberto (José da Rocha Braz), executivo do Banco Opportunity". Os emissários que levaram o dinheiro ao apartamento no bairro de Moema, na capital, precisaram fazer várias viagens para entregar todo o dinheiro que teria como destino o delegado Vitor Hugo. O objetivo era evitar que o banqueiro Daniel Dantas, sua irmã Verônica e sua mulher, Maria Alice, fossem incluídos nas investigações da Operação Satiagraha. Dantas é acusado de desvio de verbas públicas e crimes financeiros."Daniel Dantas não tem relação com esse episódio, o que ficará provado no momento oportuno", afirmou o advogado Nélio Machado, de Dantas e do Grupo Opportunity.Réu confesso, Chicaroni está preso na Polícia Federal em São Paulo desde o dia 8 de julho. Com Braz, são os únicos envolvidos na Operação Satiagraha que continuam detidos, réus por corrupção ativa. O primeiro está na carceragem da PF e o outro em presídio na cidade de Tremembé, no interior do Estado.O delegado Vitor Hugo, ainda de acordo com o depoimento de Chicaroni, foi contatado pela primeira vez no dia 11 de junho. Foi agendada uma reunião, que se efetivou uma semana depois, no restaurante El Tranvia, em São Paulo.O encontro tinha como objetivo confirmar a existência de investigação sobre Dantas. Chicaroni contou que, nessa primeira reunião, o banqueiro já havia autorizado Braz a aumentar o valor da propina de US$ 500 mil para "resolver o caso". Ele disse que o aumento deveria ter o consentimento prévio de Dantas e poderia dobrar.Após outros encontros, e definido o valor da propina em US$ 1 milhão, com autorização de Dantas, segundo o depoimento à PF, ficou acertado que o dinheiro poderia ser pago em duas parcelas de US$ 500 mil. Uma seria entregue antes da operação e a segunda depois de sua deflagração, de modo que a exclusão do banqueiro das investigações pudesse ser confirmada.O advogado de Chicaroni, Alberto Carlos Dias, afirmou que seu cliente está sendo usado como "bode expiatório" em todo esse caso. "Ele é um laranja nessa história." Dias disse ainda que não houve delação premiada, em que o acusado conta o que sabe em troca de abrandamento de possível pena e outras benesses jurídicas. "Foi uma confissão espontânea, ele relatou o que aconteceu. A questão da delação é interpretativa. Não ocorreu", observou.Para exemplificar a situação, Dias contou que ontem a PF não consentiu que fosse entregue a seu cliente o medicamento Frontal, um tranqüilizante de tarja preta. "Ele precisa desse remédio todo dia. Pediram que houvesse autorização da Justiça Federal." O depoimento de Chicaroni à Justiça Federal deverá ser realizado na próxima semana.

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