Renata Jubran/AE
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Dines, uma referência

Um dos maiores nomes do jornalismo brasileiro, Alberto Dines morreu aos 86 anos

Cezar Motta*, O Estado de S.Paulo

22 Maio 2018 | 20h38

Como o pai, que migrou da Ucrânia para o Brasil em 1928, Alberto Dines desde adolescente era um entusiasta da criação do estado de Israel e seguidor da linha social-democrata de Ben-Gurion. Por pouco não se mudou para o país recém-criado, logo depois da Segunda Guerra, quando cursava o Científico, no Rio de Janeiro. 

Percebeu, porém, que não queria passar a vida como agricultor em um kibutz. Virou crítico cinematográfico, o caminho para, afinal, se tornar jornalista, embora insistisse na carreira de documentarista. Passou pelas antigas revistas Visão e Manchete, pelo jornal Última Hora, do amigo Samuel Weiner, e pelo Diário da Noite, onde começou a aplicar seu espírito inovador.

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Lá, chamou a atriz e apresentadora de tevê Ilka Soares para editora da página feminina. Como a bela Ilka não escrevia bem, Dines convidou Clarice Lispector para servir-lhe de ghost-writer. Depois de demitido por Assis Chateaubriand, que não gostou da publicação de uma notícia, foi para a revista Fatos e Fotos, até que recebeu um telefonema de Nascimento Brito, que o convocou para dirigir o Jornal do Brasil, onde chegou em 6 de janeiro de 1962.

A reforma gráfica do JB já estava pronta desde 1960, obra de Janio de Freitas e Amílcar de Castro. Mas a empresa e a redação ainda eram caóticas. Alberto Dines criou métodos, impôs rigor na qualidade do texto, proibiu o segundo emprego (em geral, emprego público) para os novos contratados, criou as editorias de Pesquisa e a de Fotografia.

Dines enfrentou com profissionalismo a criação da TV Globo, em 1965, o que foi um desafio para o JB. Criou a Editoria de Economia, porque o assunto ganhou complexidade com as reformas de Roberto Campos e Octávio Gouvêa de Bulhões. Foi preso em 1969, logo depois do AI-5, por um discurso em defesa da liberdade de imprensa.

Dines era mais do que um jornalista, era um intelectual do seu tempo, escritor, estudioso de filosofia e psicanálise. Sempre cinéfilo, criou o Festival de Curta Metragem JB-Mesbla nos anos 60, onde novos talentos podiam exibir seus trabalhos.

*JORNALISTA, É AUTOR DO LIVRO ‘ATÉ A ÚLTIMA PÁGINA – UMA HISTÓRIA DO JORNAL DO BRASIL

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