Dilma vem a Washington

Brasil e EUA perceberam que manter o relacionamento ‘frio e distante’ não atende às necessidades de nenhum dos dois países

Peter Hakim, O Estado de S. Paulo

27 de junho de 2015 | 21h58

No momento em que a presidente Dilma Rousseff se prepara para sua visita a Washington em 30 de junho, tanto o governo brasileiro como o americano vieram a perceber que seu atual relacionamento “frio e distante” não está atendendo às necessidades de nenhum dos dois – e querem fazer algo a esse respeito. A viagem de Dilma e seu encontro com o presidente Barack Obama devem ajudar a reconstruir parte da boa vontade que foi perdida nos últimos anos e, quem sabe até, começar a restabelecer as relações. Mas as expectativas devem ser modestas. 

Quando muito, a visita é uma oportunidade para os dois presidentes começarem uma conversação séria – que muitos outros terão de continuar – sobre o que é preciso fazer para reduzir a desconfiança que permeia a relação e estabelecer a base para laços mais cooperativos, mais estreitos, que, com o tempo, poderão atender melhor aos interesses americanos e aos brasileiros. 

Desde sua reeleição em outubro, Dilma declarou várias vezes que revigorar as relações com os Estados Unidos era uma alta prioridade de seu governo. Ela deixou claro que a espionagem americana intrusiva no Brasil, revelada pelo ex-colaborador da inteligência americana Edward Snowden dois anos atrás, já não era um obstáculo à cooperação americano-brasileira. Dilma sabe melhor que ninguém – exceto, talvez, seu ministro da Economia – o quanto a economia brasileira está encrencada e a incerteza sobre alguma recuperação no curto prazo. Com os tropeços da economia chinesa, a maior parceira comercial do Brasil, e a queda dos preços das exportações de commodities do País (ferro e aço, petróleo e soja), a presidente brasileira compreende a necessidade urgente que o Brasil tem de expandir os investimentos americanos e o comércio com os EUA. Ninguém deve esperar que sua viagem, por mais bem-sucedida que seja, produza ganhos comerciais imediatos para o Brasil, mas ela deve ajudar e aumentar a confiança nas políticas e perspectivas econômicas da Nação, particularmente nas comunidades de negócios americanas, brasileiras e globais. Poderá também dar um reforço à situação política debilitada da presidente no Brasil. 

Os EUA têm menos em jogo do que o Brasil na viagem de Dilma. Mas, como declararam publicamente autoridades de política externa americana, sem uma cooperação do Brasil – ou ao menos sua acomodação – tem sido extremamente difícil para Washington seguir sua agenda na América Latina. Isto não é novidade. Dez anos atrás, foi principalmente a oposição brasileira que levou à suspensão das negociações de um pacto de livre comércio hemisférico endossado pelos EUA. Os desacordos americano-brasileiros também obstruíram esforços para proteger a democracia e os direitos humanos na Venezuela e outros lugares. 

Consistente com sua decisão histórica de normalizar relações com Cuba, e suas outras iniciativas para alinhar mais estreitamente as políticas americanas sobre imigração e drogas com a América Latina, o governo Obama quer um relacionamento mais cooperativo com o Brasil para enfrentar outros desafios nas relações interamericanas. 

Em suas discussões, Dilma e Obama deveriam dar uma atenção prioritária às relações econômicas bilaterais, que são centrais para os interesses tanto dos EUA como do Brasil, e a base mais realista para uma cooperação no longo prazo entre os dois países. Mas qualquer conversa sobre negociar um novo pacto comercial não será levada a sério e deve ser adiada, dado que os dois países não assinaram um acordo econômico significativo há mais de uma geração. O que pode e deve ser discutido é o que será preciso para expandir substancialmente o comércio bilateral, que totaliza cerca de US$ 75 bilhões anuais apenas. O Brasil certamente não deve estar satisfeito com sua participação atual de 2% no comércio mundial americano, enquanto México e China (que não tem nenhum acordo comercial com os EUA) alegam uma participação de 15% cada. As corporações americanas também deveriam ver uma enorme oportunidade aqui. 

Para começar, Dilma e Obama poderiam anunciar a meta de dobrar o valor do comércio de suas nações nos próximos oito a dez anos – e também colocar um conjunto de metas relativamente ambiciosas de crescimento e cooperação em tecnologia. Isso prepararia o palco para EUA e Brasil determinarem juntos o que cada país deve fazer para atingir seus objetivos. Mais será cobrado do Brasil, pois sua economia é mais fechada e protegida e suas necessidades são mais urgentes. E o Brasil pode ganhar mais. 

Além de economia e comércio, os dois presidentes poderiam estudar o comprometimento de seus governos com o desenvolvimento de mecanismos para uma comunicação mais rotineira e efetiva sobre assuntos globais e regionais importantes. Mesmo que não cheguem a um acordo, EUA e Brasil deveriam se consultar intensamente sobre o aprofundamento da crise na Venezuela, a reintegração de Cuba nos assuntos hemisféricos, as estruturas enfraquecidas da Organização dos Estados Americanos (OEA), e muitos outros desafios regionais. Deveriam considerar também o início de conversações regulares, de alto nível, sobre questões globais como políticas para o Oriente Médio, proliferação nuclear e mudança climática. 

Observem que estas propostas não prometem nenhum acordo ou resultados concretos da viagem de Dilma a Washington. Mas a visita deve romper a camada de gelo da relação EUA-Brasil, e pode conseguir gerar, nos próximos meses, uma conversação substancial e sustentada entre os governos e os setores privados dos dois países. Isto seria bastante para uma visita de um dia. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

Peter Hakim é presidente emértito do Inter-American Dialogue


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