Dilma vê tentativa de livrar Cunha após fatiamento de processo de impeachment

'Até as emas do Alvorada sabem que a lei para mim é uma e para os deputados e senadores é outra', afirmou a petista em entrevista à imprensa estrangeira

Álvaro Campos e Daniel Weterman, O Estado de S.Paulo

02 de setembro de 2016 | 18h35

 A ex-presidente da República, Dilma Rousseff, afirmou nesta sexta-feira que há uma tentativa de usar a sua absolvição para ocupar cargos públicos para livrar também o deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que enfrenta um julgamento por quebra de decoro na Câmara.

"Por que será que, de repente, quando está sendo votada a questão da minha inabilitação política no Senado, o nome de Cunha vem à publico, sendo que até as emas do Alvorada sabem que a lei para mim é uma e para os deputados e senadores é outra?", questionou há pouco durante entrevista para jornalistas estrangeiros no Palácio do Alvorada. "Está por trás disso uma tentativa de introduzir no espaço político a ideia de que, já que me absolveram disso, terão de absolver também o Cunha. Não mesmo. Isso não", afirmou enfaticamente.

Dilma ainda voltou a apontar as suspeitas contra Cunha e dizer que são diferentes, já que ela não é acusada de possuir contas no exterior e nem de receber propina. "No entanto, eu sou julgada e ele não. A própria imprensa noticia que há uma pressão enorme para ele não ser julgado, pois caso contrário ele pode colocar não só o presidente (Michel Temer) em questão, mas toda sua entourage", afirmou.

A presidente cassada acusou adversários de aprofundar a crise política para garantir o ambiente de impeachment. A situação, para ela, piorou ainda mais a situação econômica do País. "O que tinha de problema no Brasil logo no início de 2015 era fácil de ser corrigido. Se não se tivesse aprofundado a crise, como cuidaram de aprofundar para garantir esse ambiente de impeachment, o Brasil já teria saído da crise", falou.

Fatiamento. A petista afirmou ainda que o processo de impeachment que a tirou do poder, não existindo um crime de responsabilidade, "tem uma imensa fragilidade jurídica". Em entrevista para jornalistas estrangeiros no Palácio do Alvorada, ela voltou a explicar as argumentações técnicas de sua defesa, afirmando que outros presidentes já haviam editado decretos de crédito suplementar idênticos aos dela e que o Ministério Público Federal (MPF) deixou claro que a presidente não tem participação na execução do Plano Safra.

Dilma defendeu a votação em separada da perda do mandato e da inabilitação para ocupar cargos públicos, mas disse achar estranho que tenha havido um placar diferente nos dois sufrágios. "A segunda votação foi daqueles que consideravam que não era necessária uma punição tão forte. Eu sei que tinha muitos senadores indecisos, desconfiados de que esse processo não era o que pintavam, mas sei também que o governo interino fez uma imensa pressão", comentou. Segundo Dilma, por trás do impeachment há a ideia de que ou tiravam ela do poder ou as investigações da Lava Jato atingiriam muitos integrantes do PMDB.

Ela ressaltou que respeita a decisão do Senado, mas vai recorrer da decisão em todas as instâncias possíveis e que, nem por isso, seu impeachment deixa de ser um "golpe parlamentar". "Mais uma vez a democracia foi julgada comigo e infelizmente nós perdemos. Espero que todos juntos saibamos reconstruí-la, que ao longo desse processo sejamos capazes de ter clareza daquilo que nunca mais pode acontecer".

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