Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Dilma vê ‘golpe militar’ na Turquia e ‘parlamentar’ no Brasil

Presidente afastada compara impeachment com situação política de país que viveu tentativa de tomada de poder

Francisco Carlos de Assis, O Estado de S.Paulo

18 Julho 2016 | 22h31

A presidente afastada Dilma Rousseff voltou a defender nesta segunda-feira, 18, seu mandato durante evento na Universidade Federal do ABC (UFABC), em São Bernardo do Campo, e a classificar de “golpe” o seu processo de impeachment. Diante de uma plateia formada por quase 500 alunos, professores e sindicalistas do ramo da Educação, Dilma começou seu discurso reforçando que o motivo do evento era debater a democracia.

“Estamos aqui discutindo a democracia que permitiu no Brasil, com seus erros e acertos, a construção da política educacional, de ciência e tecnologia, e inovação”, afirmou. Dilma disse que o Brasil vive um “golpe de Estado”, mas diferente do que aconteceu na Turquia. “Eu acredito que estamos vivendo um golpe de Estado diferente do que aconteceu na Turquia, que vive na região um problema de guerra. A Turquia sofreu um golpe tipicamente militar. É preciso que a gente raciocine sobre as diferenças entre nós e o golpe lá, porque um dos maiores argumentos dos golpistas é que nós não vivemos um golpe porque não há armas e não existem tanques nas ruas.”

Na Turquia, de acordo com ela, há a tentativa de tirar o governo e, necessariamente, acabar com o regime democrático. “Nós vivemos um outro momento. Aqui no Brasil nós temos uma outra circunstância. Nós temos o golpe parlamentar, que alguns chamam de golpe frio, e outros de golpe institucional. Mas, se no golpe militar você tem o machado derrubando a árvore da democracia, no golpe parlamentar você tem os parasitas atacando a árvore. Isso é muito grave”, comparou a presidente afastada.

Para Dilma, no Brasil o processo de impeachment visa a assegurar “uma pauta que não foi e não será aprovada sem que passe pelo crivo do voto popular”. Ela ainda acrescentou que, diante da crise, o governo tem um conflito distributivo, de definir para onde vai o dinheiro. Segundo a presidente afastada, é uma “temeridade” achar que o dinheiro garantido para a população ou que políticas feitas são intocáveis.

Parlamentarismo. Para Dilma, a disputa sobre o dinheiro público se dá em relação à ação do Estado como um processo de garantia de direitos individuais e coletivos, como a interferência do governo na ordem econômica. Ainda segundo ela, por trás do impeachment há uma ambição muito forte pelo parlamentarismo.

Dilma voltou a se defender das acusações de ter cometido crime de responsabilidade. “Isso já está ficando chato porque não só o Senado, como a comissão de perícia que a Comissão do Impeachment nomeou diz que não há crime de responsabilidade. E na semana passada o Ministério Público Federal disse que não se caracteriza irregularidade em pedaladas. Se for, todos os presidentes anteriores a mim serão responsabilizados”, disse.

A presidente afastada voltou a dizer que no Orçamento do governo interino de Michel Temer não há previsão de crescimento nos gastos com Saúde e Educação.

Ela criticou também o que o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, em entrevista ao Estado, enumerou de planos A, B e C para a solução do problema fiscal. De acordo com ela, os planos do governo visam a cortar gastos, privatizar, mas não deixa claro de onde virá o aumento de arrecadação porque não fala que terá de aumentar impostos.

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