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Eliane Cantanhêde
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Dilma vai, a crise fica

A presidente Dilma Rousseff desembarca nos Estados Unidos justamente quando ela e o Brasil estão em baixa e os EUA e Barack Obama estão em alta. Dilma vive de pedalada em pedalada, com Lula jogando pedra, o PT botando casca de banana e o juiz Sérgio Moro na cola de todos eles. Já Obama esbanja seu charme natural e saboreia a reaproximação com Cuba, a vitória do Obamacare na Suprema Corte e o principal: a recuperação da economia americana.

Eliane Cantanhêde, O Estado de S. Paulo

28 de junho de 2015 | 03h00

A viagem de Dilma é o compromisso mais importante da sua agenda internacional neste ano, talvez até de todo o segundo mandato. Mas, na noite da véspera e ontem mesmo, a horas de botar o pé no avião presidencial, lá estava ela às voltas com a Lava Jato. Em vez de amarrar os últimos detalhes do decisivo encontro com Obama, foi se reunir com Aloizio Mercadante, José Eduardo Cardozo e Edinho Silva para avaliar o estrago das confissões de Ricardo Pessoa, da UTC, na já combalida imagem do PT, do governo e dela própria. (Aliás, Dilma vai, Lula vem se reunir com o PT em Brasília.)

É um momento bem diferente, praticamente inverso, daquele segundo semestre de 2013, quando Dilma corretamente cancelou a visita oficial a Washington e subiu o tom contra o governo Obama, ao saber da espionagem escancarada da NSA até nos seus e-mails. Mas Dilma não tinha alternativa agora: era ir ou ir, porque o Brasil vive a crise econômica, a crise política, a crise ética e precisa desesperadamente recuperar a confiança internacional e conquistar investimentos para sair do fundo do poço.

A agenda de Dilma começa em Nova York, onde ela tenta convencer empresários brasileiros e investidores estrangeiros de que o Brasil, apesar de tudo (e, cá para nós, dela própria), ainda é o Brasil. As trocas comerciais entre os dois países estão na casa dos US$ 60 bilhões ao ano, o que, para se ter uma ideia, é mais ou menos 10% dos valores entre EUA e China ou entre EUA e México. Com a recessão de 1,1% em 2015, Dilma tem de correr atrás. Afinal, se o Brasil ainda é o Brasil, os EUA ainda serão a principal potência mundial por décadas.

A visita oficial a Washington será na segunda, com um jantar com Obama, e na terça, com as reuniões no Salão Oval, assinatura de atos e a tradicional declaração conjunta nos jardins da Casa Branca. Se o script for mantido, os jornalistas brasileiros perguntarão aos dois sobre Global Entry, relações comerciais, acordos de Defesa, consensos na área climática, divergências na política internacional. E os jornalistas americanos? Perguntarão a Obama sobre terrorismo, questões internas, aprovação do casamento gay. Ou seja: não darão a menor bola para Dilma e para o Brasil. Pelo menos, é de praxe.

Dilma encerra a viagem pela bela Califórnia, onde irá à Universidade Stanford, ao Centro de Pesquisas da Nasa e à sede do Google. Se tiver sorte, dará um passeio e tirará boas fotos nos carros inteligentes que o Google, entre outros, desenvolve. Um carro sem marchas, sem espelhos, sem volante – e sem motorista. Mais ou menos como o atual governo brasileiro, mas não aos trancos e barrancos.

Um conselho para Dilma, porém: ela deve fugir da tentação de sair de bicicleta em Nova York. Entre residentes e turistas, há muitos brasileiros por lá e o risco de ser vaiada é grande. Pior: isso remeterá fatalmente às peripécias de Fernando Collor no Central Park, suado, correndo de manhã até o memorial de John Lennon, enquanto sua ministra da Economia, Zélia Cardoso de Mello, desfilava de charrete à noite para comunicar ao mundo a paixão pelo colega da Justiça.

A hora é de tentar reverter para a política interna os lucros externos da visita a Obama, sem extravagâncias e riscos desnecessários. Dilma tem 65% de rejeição, só três pontos a menos que Collor às vésperas do impeachment. Que a comparação entre os dois pare por aí.

PS. Por falar em Collor, por que raios a UTC teria doado R$ 20 milhões para o ex-presidente, duas décadas depois do impeachment?

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