Dilma sem Lula faz Serra subir o tom

À vontade, favorecido pelo sorteio que o permitiu subir à tribuna depois de Dilma, ele abandonou o figurino light e produziu uma avant-première da campanha pós-Copa

Análise: João Bosco Rabello / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

26 Maio 2010 | 09h42

O que mais chamou a atenção na sabatina dos presidenciáveis promovida nesta terça-feira, 25, pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) foi a performance de José Serra. No primeiro ambiente em que dividiu as atenções com Dilma Rousseff, sem Lula a fazer sombra à candidata, o ex-governador partiu para o ataque. Produziu uma avant-première da campanha após a Copa do Mundo, pródigo em críticas ao governo e à exposição de sua antecessora na tribuna .

 

Do aparelhamento dos postos estratégicos do governo ? com ênfase nas agências reguladoras ?, passando pela desconstrução do projeto de reforma tributária defendida minutos antes por Dilma, até a condenação da política de juros do Banco Central, Serra foi um crítico contundente do governo, abandonando o figurino light que vestira até aqui.

 

Estava à vontade e ansioso pelo debate. Sinal claro de que aposta suas fichas na etapa da campanha em que estará frente a frente com Dilma na televisão.(E esta, por sua vez, aposta nos palanques com Lula.) Serra chegou a conclamar a anfitriã, CNI, a mudar o formato do evento, transformando-o de sabatina em debate (o que a legislação impede). E deu o tom de sua campanha: a Lula, reconhecimento pelos seus méritos; a Dilma, o ardor da oposição.

 

A rigor, os três candidatos saíram-se bem na sabatina de ontem, dentro daquilo a que se propuseram. Dilma comprovou que o processo de mídia training (sessões sucessivas de treinamento simulando debates e entrevistas) pode fazer com que candidatos superem suas dificuldades diante de plateias exigentes.

 

Preocupou-se em mostrar naturalidade na abordagem de temas econômicos complexos e de mostrar-se como garantia de continuidade não só de governo, mas também de preservação da estabilidade econômica. Prometeu não rasgar contratos, admitindo que seu perfil impõe esse temor.

 

Cometeu aí seu principal erro.

 

Não convenceu na abordagem da reforma tributária, porque se limitou a culpar o Congresso pela rejeição de uma proposta do governo nesse sentido, que, na sequência, José Serra demonstrou equivocado. Também não convenceu ao defender a política monetária, ficando menos à vontade que Serra nesse quesito, pois o que se conhece de sua posição sobre o tema combina mais com o pensamento do adversário do que com o do presidente do BC, Henrique Meirelles, a quem sempre se opôs dentro do governo. Respondeu à maioria das questões formuladas pelos empresários com o PAC, elegendo-o como a panaceia para todos os problemas.

 

Estruturou sua fala em cima daquilo que já foi realizado pelo governo Lula e que usou para se credenciar como a gestora da continuidade.

 

Favorecido pelo sorteio que lhe permitiu, como segundo orador, críticas sem réplica, Serra foi além do provável script que levara no bolso. Solto, completamente à vontade, muito longe da imagem fria que sempre o caracterizou, surpreendeu a plateia de empresários com análise técnica e política do cenário industrial e econômico, pontuada com piadas e ironias, finalizando com a promessa de, se eleito, desonerar a indústria de impostos estratégicos.

 

Marina Silva parecia condenada à repulsa íntima de cada espectador, por começar sua fala já após a hora normal de almoço, para uma plateia previamente disposta a acompanhar apenas os dois primeiro candidatos, na convicção de que a eleição está polarizada.

 

Surpreendeu, porém, ao manter a atenção de todos logo nos primeiros dos 25 minutos de sua exposição. "Negra, professora, analfabeta até os 16 anos, universitária oriunda do Mobral, latino-americana e sem carisma", definiu-se, conquistando a plateia.

 

Deixou um desafio aos seus antecessores: "A maioria vem aqui e assume compromisso com a reforma; uma vez eleita, reforma o compromisso", disse, para aplauso dos empresários. Definiu Dilma e Serra, pela ordem, como candidatos que prometem continuidade e mais realizações. "Mais do mesmo", criticou, para colocar-se como aquela que pode cumprir o lema de Serra "podemos fazer mais", absorvendo conceitos novos de uma economia moderna e comprometida com o crescimento sustentado.

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