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'Grampeia o presidente dos EUA e veja o que acontece com o grampeador', diz Dilma

Presidente disse que grampo telefônico da Presidência, sem autorização do Supremo, fere legislação e defendeu instituições democráticas; 'se qualquer um for grampeado, ninguém terá direito de cidadania no País', criticou

Adriano Ceolin, enviado especial, Maria Regina Silva e Mário Braga, O Estado de S. Paulo

18 de março de 2016 | 12h18

São Paulo - A presidente Dilma Rousseff voltou a criticar nesta sexta-feira, 18, a interceptação de uma conversa telefônica sua com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva no âmbito da Operação Lava Jato. Em discurso, Dilma rebateu também a referência feita pelo juiz Sérgio Moro ao escândalo de Watergate, no Estados Unidos, que culminou com a renúncia do então presidente Richard Nixon, em 1974.

"As situações são bem diferentes porque lá era o presidente que grampeava todo mundo. Este exemplo só mostra que nem mesmo um presidente pode grampear (ligações) sem autorização", afirmou, durante evento de entrega de residências do programa Minha Casa, Minha Vida, em Feira de Santana (BA).

O republicano Nixon foi primeiro presidente da história dos EUA a sofrer impeachment acusado de autorizar gravações clandestinas numa sede do Partido Democrata. A presidente lembrou que Nixon foi proibido de gravar as conversas que mantinha na Casa Branca. "Nixon grampeava todos que entravam na sala dele. E aí que aconteceu? A Suprema Corte dos EUA mandou ele entregar todos os grampos e o proibiu de grampear", disse.

Dilma voltou a dizer que não pode ser alvo de interceptação telefônica sem mencionar, porém, que o grampo ocorreu no telefone do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. "Um presidente tem garantias constitucionais. Ele não pode ser grampeado. A não ser com autorização expressa da Suprema Corte Em outros países, quem grampeia vai preso. Grampeia o presidente dos EUA e veja o que acontece com o grampeador."

As declarações foram feitas no evento de entrega de cerca de 1600 unidades do programa Minha Casa Minha Vida em Feira de Santana, cidade baiana localizada a 200 km de Salvador. Dilma falou para cerca de 2 mil pessoas que se apinhavam para assistir o evento realizado no meio do condomínio de prédios recém-prontos do Minha Casa Minha Vida.

Quando ela chegou, um pequeno grupo à frente do palco gritou "não vai ter golpe". O público, porém, não acompanhou o coro. Ela estava acompanhada do governador da Bahia, Rui Costa (PT). Ambos foram aplaudidos. Ex-governador e atual ministro-chefe do Gabinete Pessoal a Presidência, Jaques Wagner compareceu. Atual prefeito de Feira de Santana, José Ronaldo (DEM), também foi aplaudido pelo público, mas vaiado por um pequeno grupo de militantes.

A presidente não citou nominalmente o juiz Sérgio Moro, mas fez questão de explicar o episódio da conversa gravada com o ex-presidente Lula. E como já havia feito na quinta, no Palácio do Planalto, ressaltou que "irá tomar as medidas cabíveis" contra o juiz.

Dilma tentou fazer um relato didático sobre o episódio do grampo. Explicou que ligou para Lula a fim de avisá-lo que mandaria o termo de posse caso ele não pudesse comparecer no evento em Brasília. "Ele (Lula) ia para São Paulo, pois Dona Marisa estava doente. Eu liguei 'estou mandando aí no aeroporto para pegar sua assinatura para voltar para a cerimônia de posse'", afirmou, "O presidente Lula aceitou, mas tem muita gente que não quer ver ele trabalhando para ajudar o povo brasileiro, criando empregos."

Dilma relembrou que apesar de ocupar a cadeira da Presidência atualmente, chegou a ser presa por três anos durante a década de 1970. "Hoje, qualquer um pode ir às ruas, criticar, dizer o que pensa e se expressar livremente", afirmou, defendendo a manutenção dos valores democráticos e criticando a politização de instituições jurídicas e policiais.

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