Dilma propõe amplo diálogo a Bento 16

Em carta que Gilberto Carvalho leva a Roma, ela pede relações "melhores possíveis’

Vera Rosa, de O Estado de S.Paulo

18 de novembro de 2010 | 23h01

BRASÍLIA - Depois de enfrentar uma campanha dominada pela polêmica do aborto em dois turnos, Dilma Rousseff fez mais um gesto para se aproximar da Igreja Católica, agora como presidente eleita do Brasil. Em tom bastante cordial e recorrendo a expressões cristãs, Dilma enviou uma carta ao papa Bento XVI na qual assegura que deseja manter amplo diálogo com o Vaticano, na mesma linha da política adotada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

 

O emissário da correspondência escrita por Dilma será Gilberto Carvalho, chefe de gabinete do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que embarcou ontem à noite para Roma. Carvalho vai se encontrar na segunda-feira com o secretário da Santa Sé para Relações com os Estados, Dominique Mamberti, que receberá a mensagem endereçada ao papa.

 

"A intenção da presidente eleita é fazer uma saudação ao papa e garantir que as relações do próximo governo com a Igreja continuarão sendo as melhores possíveis", disse o chefe de gabinete de Lula, que aproveitará a viagem para participar da cerimônia, no fim de semana, em que o arcebispo de Aparecida (SP), dom Raymundo Damasceno, será nomeado cardeal.

 

A três dias do segundo turno, Bento XVI condenou a descriminalização do aborto e da eutanásia e recomendou aos bispos brasileiros que emitissem "juízo moral" sobre essas questões, mesmo em "matérias políticas". Embora não tenha feito referência direta à eleição, o papa pediu aos bispos que orientassem os fiéis a usar o voto para a "promoção do bem comum".

 

Antes disso, a duas semanas da eleição, e sob pressão de religiosos, Dilma havia lançado uma carta-compromisso aos cristãos em que destacava ser pessoalmente contra o aborto. Foi a segunda versão de um texto preparado por um grupo de católicos e evangélicos. Ela se recusou a assinar o primeiro rascunho, que condenava o casamento entre homossexuais.

 

A polêmica relativa à interrupção da gravidez foi, na prática, motivo de vários embates entre Dilma e o candidato do PSDB, José Serra, e dividiu o comitê petista. Serra bateu na tecla de que a adversária defendera o aborto, em 2007, e mudara o discurso por causa da eleição.

 

A então candidata do PT disse que sempre tratou o assunto como "questão de saúde pública". Pela lei, a interrupção da gravidez é permitida em casos de estupro e risco de morte para a mãe.

 

"Não acredito que numa campanha entre dois homens esses temas teriam tanta relevância", afirmou Dilma ao Estado, às vésperas do segundo turno. "Pôr no centro da disputa a questão religiosa não foi bom para o Brasil. O Estado é laico."

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