Dilma põe em dúvida, pela 1ª vez, meta de erradicar pobreza em quatro anos

Ao lançar o programa Rede Cegonha, em Belo Horizonte, presidente afirma que governo vai dar um salto em relação às políticas sociais de Lula, mas admite que miséria talvez persista ao final do mandato

Julia Duailibi e Marcelo Portela, de O Estado de S. Paulo

28 de março de 2011 | 23h00

A presidente Dilma Rousseff (PT) admitiu nesta segunda-feira, 28, pela primeira vez, que os quatro anos de seu mandato podem não ser suficientes para erradicar a miséria no País. O combate à miséria foi uma das principais promessas de Dilma durante a campanha eleitoral e ao assumir o governo. A presidente também aproveitou o discurso em Belo Horizonte, ao participar do lançamento da Rede Cegonha, programa de atendimento às gestantes, para minimizar as críticas que ela própria fizera ao sistema público de saúde, na semana passada.

 

"Temos também um grande compromisso, que é acabar com a miséria no nosso Brasil. Posso não conseguir acabar nos meus quatro anos, mas eu vou insistir tanto nisso, que esse objetivo de acabar com a miséria vai ficar selado nas nossas consciências", afirmou ontem a presidente. Em seu discurso de posse, em janeiro, Dilma chegou a dizer que a erradicação da miséria, uma "tragédia", como definiu, seria a prioridade da sua gestão. "Lutarei firme e decididamente para acabar com a miséria no nosso País", afirmou em fevereiro.

 

De acordo com dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), de 2009, o número de pobres (com renda per capita mensal de até R$ 140) no Brasil caiu quase pela metade, entre 2003 e 2009, passando de 30,4 milhões para 17 milhões. Os próprios economistas do governo, no entanto, já diziam ser pouco provável diminuir o número para zero em quatro anos.

 

‘Salto’. Apesar de admitir que talvez não consiga extinguir a miséria no seu governo, Dilma disse achar que o Brasil dará um "salto maior ainda" que o visto nos dois mandatos do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010). Os avanços, segundo a presidente, serão consequência da "herança" positiva recebida do antecessor.

 

Depois de ter feito, na semana passada, críticas indiretas ao Sistema Único de Saúde (SUS), o qual já havia dito ser "incompleto" e ter "falhas", a presidente afirmou ontem que não se pode ficar "parado, de braços cruzados, olhando para o SUS e falando que ele é bom". "Agora temos de fazer um esforço para estar à altura do desafio que aqueles que lançaram o SUS, nos anos 80, tiveram o compromisso com o Brasil. Temos de transformar cada vez mais, a cada dia, o nosso SUS em um grande e em um ótimo sistema de saúde."

 

Dilma disse ainda ser importante criticar: "Nós estamos abertos a escutar críticas. Sabemos que só quem escuta pode melhorar. Aqueles que acham que atingiram o mundo perfeito nunca melhoram, nunca dão um passo". O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, acompanhou a presidente durante a viagem.

 

Cegonha e creche. Para a presidente, o SUS deve operar com qualidade para que o programa Rede Cegonha funcione - segundo o Ministério da Saúde serão investidos R$ 9,4 bilhões até 2014 em atendimentos que vão do pré-natal até os dois anos de vida do bebê. O programa, também uma promessa de campanha, foi anunciado como contraponto ao Mãe Paulistana, implantado em São Paulo na gestão de José Serra (PSDB), derrotado por Dilma em 2010.

 

Durante o seu discurso, de 25 minutos, a presidente quase cometeu uma gafe. Chegou a dizer que "creche não é só um depósito de criança". Ao perceber a falha, consertou: "Não é só um depósito de criança porque nunca foi." "Uma creche que é um depósito de crianças é uma distorção que nós não podemos permitir."

 

Vale-táxi. O governo da presidente Dilma Rousseff prometeu nesta segunda que vai pagar táxi para gestantes. O vale-táxi é um dos pontos previstos no programa Rede Cegonha, lançado segunda.

 

Pelo painel apresentado ontem pelo ministro Alexandre Padilha, o Transporte Seguro terá investimentos de R$ 262,6 milhões, o que representa 2,79% da verba prevista para o Rede Cegonha. "Muitas vezes as mulheres não vão para o pré-natal, principalmente das populações de menor renda, porque não têm acesso ao transporte", disse Dilma.

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