Dilma pede ação contra clima de insegurança

Planalto tenta amenizar impacto da Lava Jato em obras; ministro fala em 'olhar para a frente'

VERA ROSA, TÂNIA MONTEIRO / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

23 de junho de 2015 | 02h07

Preocupada com o impacto da Operação Lava Jato no programa de concessões, a presidente Dilma Rousseff pediu ontem para ministros desfazerem o clima de insegurança que domina a cena política e econômica desde que a Polícia Federal prendeu, na sexta-feira, os presidentes das empreiteiras Odebrecht e Andrade Gutierrez. A ordem no Palácio do Planalto é transmitir confiança, mas, nos bastidores, há temor com os desdobramentos da investigação.

Em reunião com ministros que compõem a coordenação política do governo, na tarde de ontem, Dilma consultou o vice Michel Temer, articulador político do Planalto, sobre o efeito da prisão dos presidentes da Odebrecht, Marcelo Odebrecht, e da Andrade Gutierrez, Otávio Azevedo, no plano de investimentos em logística.

Temer respondeu que, juridicamente, não havia empecilho para a participação das empresas no programa. O vice reforçou o que dissera o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, e contestou o juiz Sérgio Moro, para quem a permissão para empresas investigadas entrarem em licitações provoca "risco de reiteração das práticas corruptas".

Mesmo assim, todos concordaram na reunião que é preciso acompanhar "com lupa" a possível sucessão nas duas maiores empreiteiras do País. O receio do governo é que possa haver paralisação de obras e demissões, o que, para auxiliares de Dilma, seria "o pior dos mundos".

O discurso oficial, porém, é de que não há turbulência no radar do Planalto. "Vamos olhar para a frente, e não para o passado", disse o ministro da Aviação Civil, Eliseu Padilha, que ajuda Temer na articulação política. "Há um programa em andamento, para concessões em portos, aeroportos, rodovias e ferrovias, que não tem absolutamente nada a ver com a Lava Jato", emendou ele, em referência à segunda etapa do plano de investimento em logística, lançado no dia 9, totalizando R$ 198,4 bilhões.

Padilha admitiu que o governo precisa "capitalizar" as iniciativas positivas e minimizou a baixa popularidade de Dilma, sob o argumento de que há ligeira melhora na avaliação da sociedade sobre a economia.

Viagem. A prisão dos executivos da Odebrecht e da Andrade Gutierrez, às vésperas da viagem de Dilma aos Estados Unidos, é outro motivo de preocupação no Planalto. Dilma tem um encontro com o presidente americano, Barack Obama, no próximo dia 30 (mais informações na pág. A9). Antes disso, no dia 29, em Nova York, ela vai se reunir com representantes do mercado financeiro, de fundos e bancos americanos. Em Washington, conversará com empresários da área de infraestrutura, petróleo e gás e em San Francisco sua agenda será mais voltada à alta tecnologia.

Angústia. Além da angústia com o "day after" da Lava Jato, há no PT e até em setores do governo a convicção de que o alvo da operação, agora, é o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Não sem motivo: Marcelo Odebrecht é o executivo de empreiteira mais próximo de Lula.

Em conversas reservadas, ministros do PT consideraram "desastroso" o vazamento da reunião de Lula com religiosos, na semana passada, quando ele criticou a presidente. "Dilma está no volume morto, o PT está abaixo do volume morto e eu estou no volume morto", afirmou Lula. "Todos estão numa situação muito ruim. Estamos perdendo para nós mesmos."

No Planalto, a avaliação foi a de que Lula quis "transmitir um recado" para o governo e "deixou vazar" a conversa, contaminando ainda mais a relação com sua sucessora, que já não anda bem há tempos. Para piorar, ontem ele disse que o PT está velho e só pensa em cargos.

Apesar da crise sem fim, a presidente procura reagir e retomar a agenda positiva. Amanhã, por exemplo, Dilma lançará o programa de incentivos às exportações.

A prioridade absoluta do governo, nesta semana, é votar o projeto de lei que revê a política de desoneração da folha de pagamento das empresas. A medida é vista pela equipe econômica como "fundamental" para completar o ajuste nas contas públicas. O presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), prometeu a Temer que o projeto será votado até quinta-feira, mas o governo teme a falta de quórum por causa das festas juninas. / COLABORARAM RICARDO DELLA COLETTA e CARLA ARAÚJO

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