Felipe Sampaio/SCO/STF
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'Dilma não teve coragem de colocar uma mulher', diz Ela Wiecko sobre a PGR

Coordenadora do Comitê Gestor de Gênero e Raça no MPF fala da dificuldade da entrada das mulheres na instituição mesmo por meio de concurso público

Elisa Clavery, O Estado de S.Paulo

24 de julho de 2017 | 16h58

Subprocuradora-geral da República e coordenadora do Comitê Gestor de Gênero e Raça (CGGR) do Ministério Público Federal (MPF), Ela Wiecko afirma que a chegada de Raquel Dodge na Procuradoria-Geral da República (PGR) é tão marcante quanto a chegada da primeira mulher à Presidência. "Há muitas queixas de procuradoras que ouvem, numa investigação, o delegado perguntar 'nossa, mas é você mesmo?'. Ou um juiz fazendo gracinha", disse em entrevista ao Estado. "O fato de haver uma mulher na PGR também é importante para acabar com essa relação." A subprocuradora também era uma das candidatas, neste ano, para ocupar o cargo de Rodrigo Janot na PGR.

Para Ela, um dos maiores desafios é aumentar a entrada das mulheres em cargos de procuradores da República, por meio de concurso público. "A mulher precisa ter vantagens no MPF, mesmo indo para um lugar difícil (após o concurso). Ela precisa saber que vai ter direito a creche nesse local, por exemplo", disse a subprocuradora.

Desde 2001, quando foi criada a tradição da formação da lista tríplice para a escolha do procurador-geral da República, o nome de Ela já apareceu 6 vezes, embora nunca em primeiro lugar. A subprocuradora lembrou que, mesmo quando a Presidência era de Dilma Rousseff, ela não foi escolhida para comandar a PGR. 

Como a senhora avalia a chegada da primeira mulher àPGR?

Isso é muito importante, tanto quanto a chegada da primeira presidente da República mulher. Rompe o discurso da incapacidade feminina. As crianças, principalmente as meninas, vão pensar 'eu posso chegar a ser presidente'. As mulheres que estudam Direito podem chegar à PGR. Isso quebra esse padrão de nichos de que algumas profissões e alguns cargos só podem ser ocupados por homens. É o mito da impossibilidade ou da falta de competência. Além disso, muitas procuradoras também sofrem preconceitos por serem mulheres. Há muitas queixas de procuradoras que ouvem, numa investigação, o delegado perguntar "nossa, mas é você mesmo?". Ou um juiz fazendo gracinha. O fato de haver uma mulher na PGR também é importante para acabar com essa relação.

Como tem sido o trabalho do Comitê Gestor de Gênero e Raça (CGGR) do MPF, do qual a senhora é coordenadora?O primeiro trabalho que a gente fez foi levantar estatísticas. Na carreira de procurador da República, por exemplo, as mulheres não chegam a 30% - e nos últimos concursos o percentual caiu mais ainda. Nesse ano, a Escola Superior (do MPU) promoveu um curso para os procuradores sobre equidade de gênero e raça. Estamos levantando as discussões.

Também identificamos que as mulheres se inscrevem menos que os homens no concurso. Por que isso? A carreira é nacional e as vagas que surgem são as vagas do fim da linha, as piores, na fronteira. A gente sabe que, na condição que a sociedade coloca as mulheres, essa situação é mais difícil. Ha uma preferência pelas mulheres por concursos que não tenham essa possibilidade de distanciamento do seu meio, da sua família. Numa pesquisa que eu fiz, aparece que, entre casais, a mulher acaba priorizando o homem para que ele faça o concurso primeiro. Nesse meio tempo, ela fica grávida. Não é uma coisa que só a instituição pode resolver, é algo cultural.  

Ainda estamos muito no início da discussão, mas uma das soluções seria o concurso regional, em vez de nacional. Outro pensamento é que a mulher precisa ter vantagens no MPF, mesmo indo para um lugar difícil. Ela precisa saber que vai ter direito a creche nesse local, por exemplo. Também se está discutindo a possibilidade de teletrabalho: ela vai trabalhar num lugar difícil, mas pode fazer um trabalho à distância às vezes.

O cargo de PGR e de procuradores-gerais de Justiça exigem nomeação no Executivo. Isso dificulta a entrada das mulheres? O MP pode fazer algo a respeito?

Nos MPs estaduais, temos mais casos de procuradoras-gerais de Justiça, não é tão incomum. Hoje, só tem 3 mulheres, mas já houve épocas que teve mais. Na PGR, agora, foi escolhida um segundo lugar (da lista tríplice). Foi curioso porque eu fiquei em segundo lugar no governo justamente da Dilma e ela não teve coragem de botar uma mulher. E o Ministério dela foi muito elogiado por ter mais mulheres. 

É muito forte o domínio masculino na política. Uma das ideias que surgiram nessas discussões é que se tenha em mente o critério de gênero na hora de montar um grupo de trabalho ou uma força-tarefa. Na Lava Jato isso foi muito discutido, foi montada uma equipe em todo o Brasil com pouquíssimas mulheres. Tem aquela história de "cumplicidade masculina". O homem chama o amigo homem. O grande desafio, antes de tudo, é chegar próximo aos 50% de procuradoras mulheres. Enquanto isso não acontece, as mulheres têm que ser convidadas sempre para assegurar uma participação feminina em grupos e forças-tarefas.

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