Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

Dilma muda articulação política e tenta se blindar contra novas reações hostis

Com Gilberto Kassab, Aldo Rebelo e Eliseu Padilha, presidente aumenta poder de aliados no núcleo do governo; ao mesmo tempo, intensifica monitoramento de humores nas redes sociais e busca aproximação com movimento sociais para antecipar tensões

Vera Rosa, Tânia Monteiro e Leonêncio Nossa , O Estado de S. Paulo

11 de março de 2015 | 20h09

Atualizado às 23h14


Depois de derrotas no Congresso, panelaços durante um pronunciamento na TV e até vaias em eventos oficiais da Presidência, Dilma Rousseff resolveu promover alterações em sua articulação política, monitorar as redes sociais para evitar protestos-surpresa e se aproximar de movimentos sociais para antecipar tensões. A tentativa de reação do governo petista ocorre às vésperas de uma grande manifestação, marcada para domingo, que tem entre suas principais bandeiras o pedido de impeachment da presidente. 

Ela informou no final da tarde desta quarta-feira, 11, que vai incluir o PMDB, o PCdoB e o PSD na coordenação política do governo. Trata-se do grupo de ministros que se reúne com ela no Palácio do Planalto, todas as semanas, para discutir estratégias e ações do Executivo, o chamado "núcleo duro", que tem o poder simbólico na Esplanada dos Ministérios de estar mais perto do gabinete presidencial. A composição atual do grupo só inclui petistas. Num primeiro momento, serão incluídos nessa equipe os ministros da Ciência, Tecnologia e Inovação, Aldo Rabelo, do PCdoB, dos Transportes, Elizeu Padilha, PMDB, e das Cidades, Gilberto Kassab, do PSD.

A ampliação do grupo é uma tentativa da presidente em reduzir a pressão para demitir o ministro da Casa Civil, Aloizio Mercadante, um dos principais nomes da atual coordenação política, na avaliação de interlocutores do governo. Setores do próprio PT argumentam que Mercadante não está tendo boa atuação num momento em que o governo enfrenta sua pior crise.

Numa entrevista na periferia de Rio Branco, onde visitou desabrigados das enchentes e entregou chaves de moradias do programa Minha Casa, Minha Vida, a presidente enfatizou que não cortará a cabeça de Mercadante. "Não há nenhuma medida de modificação na coordenação política, a não ser o seguinte: vamos aumentar o número de pessoas e partidos, obviamente", disse. "Vamos fazer um rodízio para trazer ministros novos para o debate."

A mudança na articulação política – que agora terá os ministros Gilberto Kassab, do PSD, Aldo Rebelo, do PC do B, e Eliseu Padilha, do PMDB – ocorre após pressão de seu antecessor e padrinho político, Luiz Inácio Lula da Silva, com quem jantou na noite de terça-feira, em Brasília. Lula reclamou do chefe da Casa Civil, Aloizio Mercadante. Disse que Mercadante é “desagregador”, tem um “ego maior que o seu gabinete” no Palácio do Planalto e vive “trombando com o PMDB” e com o próprio PT. “Se ele fosse tão bom assim, teria sido ministro no meu governo”, teria dito o ex-presidente à sucessora. 

Quem está na linha de tiro, no momento, é o titular de Relações Institucionais, Pepe Vargas (PT), que, em tese, é o responsável pela negociação com o Congresso. Dilma gosta de Pepe e tenta preservá-lo, mas há movimento no PT e no PMDB para substituí-lo. Uma ala do PMDB quer transferir o cargo de Pepe para Eliseu Padilha. 

Dilma deu a entrevista debaixo de um toldo montado em Cidade do Povo, bairro onde entregou 433 chaves de novas casas. Em meio ao mormaço e ao calor amazônico, a presidente sinalizou, suando e demonstrando sofrer com a temperatura, que pretende dar mais flexibilidade à relação do governo com o Congresso. "Eu sempre estive aberta ao Congresso", disse ao responder a uma pergunta sobre sua relação com o Legislativo. Num segundo momento, disse a presidente, ministros de outros partidos da base aliada poderão ser incluídos no grupo da coordenação política. "Vamos chamar os ministros para participar. Todos participarão". Ela relatou que o grupo da coordenação poderá ter reuniões semanais. "É muito flexível, é um sistema de governo."

Atenção. Após Dilma ser vaiada em São Paulo em um evento fechado na sexta-feira, o Palácio do Planalto decidiu monitorar o humor das pessoas nas redes sociais e vistoriar locais de visita da presidente com mais atenção. Na visita que fez a Rio Branco, no Acre, um pequeno grupo de pessoas protestou contra ela. O número de apoiadores, porém, era bem maior.

Dilma Rousseff ainda comentou sobre as manifestações contra seu governo anunciadas para o próximo domingo pelas redes sociais. A presidente fez questão de lembrar sua atuação de militante na resistência à ditadura militar, nos anos 1960 e 1970. "Sou de uma época em que não era possível se manifestar. As pessoas que se manifestavam iam diretamente para a cadeia. Eram chamadas de subversivas ou nomes piores", disse. "Uma das maiores conquistas do nosso país foi a democracia. Passei a vida me manifestando nas ruas, por isso não tenho o menor interesse, intuito nem tão pouco compromisso com o processo de restrição de livre manifestação no País", afirmou. "Se nós temos o direito de manifestar, nós temos o direito de manifestar", completou. "O que não temos é o direito de ser violentos."

A presidente ainda citou a onda de protestos de junho e julho de 2013. "Veja o exemplo de 2013. Eram manifestações pacíficas, mas teve um momento que se perdeu o controle porque um grupo ficou mais violento", lembrou. "Um colega de vocês foi assassinado", ressaltou, numa referência ao cinegrafista Santiago, da TV Bandeirantes, morto quando cobria um protesto no Rio."A livre manifestação é algo que o Brasil tem de defender, mas que seja pacífica."

‘Dúvida’. O deputado estadual Edinho Silva (PT-SP), tesoureiro da campanha à reeleição de Dilma, divulgou uma “Carta Aberta ao PT”, na qual admite “erros” no partido. O petista prega uma reação forte do partido e do Planalto ao cerco político e diz que é hora de todos irem para a luta, sob o argumento de que há momentos em que “a dúvida leva à derrota e o recuo, ao aniquilamento. “Há sim, erros no nosso campo político”, escreveu Silva na mensagem, enviada por e-mail para dirigentes, militantes e ministros do PT. 

“Nunca na nossa história assimilamos com tanta facilidade o discurso oportunista de uma direita golpista e nunca estivemos tão paralisados. (...) Se a corrupção é endêmica e povoa as instâncias governamentais, ela tem que ser combatida com muita dureza. (...) Se pessoas se utilizaram do PT para enriquecimento, toda vez que isso for provado esses têm que pagar e nós temos que ser os primeiros a defender a penalização”, escreveu. / COLABOROU RAFAEL MORAES MOURA 

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