Dilma minimiza mal-estar com carta de demissão de Marta: ‘Ela externou opinião'

No Catar, presidente diz que já sabia do conteúdo do texto divulgado pela ex-ministra da Cultura, na qual ela critica a condução da economia; petista afirma ainda que não vai anunciar uma reforma ministerial após a reunião do G-20: ‘Vou fazer por partes’

Pedro Venceslau, enviado especial, O Estado de S. Paulo

12 de novembro de 2014 | 08h39

Atualizado às 22h00

DOHA - A presidente Dilma Rousseff procurou minimizar nesta quarta-feira, 12, o mal-estar no governo pela maneira com que a ex-ministra da Cultura, Marta Suplicy, deixou o cargo. Ao desembarcar em Doha, no Catar, a presidente disse que já sabia do conteúdo da carta de demissão de Marta, na qual ela cobra para o novo mandato de Dilma uma equipe econômica "independente", que "resgate a confiança e credibilidade" do governo.

As críticas da ex-ministra foram recebidas com surpresa no Palácio do Planalto e Dilma foi informada em pleno voo entre Brasilia e a capital do Catar sobre o conteúdo do texto.

"Eu sabia do conteúdo da carta. Nós acertamos isso antes", afirmou Dilma, para quem a demissão de Marta foi acordada há um mês. "Ela não fez nada de errado. Não teve atitude incorreta. Apenas externou uma opinião dela."

Apesar da tentativa da presidente de minimizar o constrangimento com a atitude de Marta, fontes do governo manifestaram surpresa com o tom do documento e com o fato de ele ter sido entregue à Casa Civil quando Dilma já estava fora do Brasil. A saída da petista de fato já era prevista, mas as críticas à condução do governo, em especial na economia, foram interpretadas como uma sinalização de que a ex-ministra, magoada com o PT, quis demarcar espaço.

Outra interpretação é que Marta, com o gesto, explicitou o desejo de entrar na disputa pela Prefeitura de São Paulo em 2016 - o que contraria a cúpula do PT, que prefere apostar na reeleição de Fernando Haddad -, nem que para isso tenha de deixar a sigla.

Nesta quarta, em Brasília, o vice-presidente Michel Temer chegou a ser questionado sobre a possibilidade de a ex-ministra ingressar no PMDB. O marido de Marta, o empresário Márcio Toledo, é amigo de Temer. "Não sei ainda", se limitou a dizer o vice-presidente.

Também na capital federal, o senador e presidente nacional do PSDB, Aécio Neves (MG), ironizou as afirmações da ex-ministra e do chefe da Secretaria-Geral da Presidência, Gilberto Carvalho - que em entrevista à BBC esta semana disse que a presidente dialogou pouco com a sociedade e se afastou dos "principais atores na economia e na política" nos últimos quatro anos. "Concordo com a Marta, com o Gilberto Carvalho. Estou concordando em tudo com os ministros da Dilma", afirmou o tucano, que foi derrotado por Dilma no 2.º turno da eleição presidencial.

 

 

Dilma, em viagem para a reunião do G-20, na Austrália, desembarcou nesta quarta em Doha para uma parada técnica, seguida de encontro oficial com o emir do Catar, xeque Tamim bin Hamad Al Thani e com a xeica Moza bint Nasser, além de uma visita à Fundação Catar.

Reforma ministerial. A presidente evitou falar em datas para reforma ministerial prevista para o segundo mandato. "Não vou fazer a reforma imediatamente", afirmou. "Vou fazer por partes." Questionada sobre a possibilidade de começar as mudanças quando retornar do encontro do G-20, na terça-feira, ela foi categorica: "Nem pensar. Não tem reforma na terça. Não dá tempo."

Dilma ainda ironizou especulações noticiadas com base no Palácio do Planalto. "Palácio não fala. É integrado por paredes mudas. Só quem fala sobre reforma é esta modesta pessoa que vos fala." / COLABORARAM ISADORA PERON E RAFAEL MORAES MOURA

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.