Ed Ferreira/AE
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Dilma manda ministro dos Transportes parar obras e licitações sob suspeita

Por ordem da presidente, Alfredo Nascimento suspende serviços do Dnit e da Valec, principais braços executivos da pasta; Luiz Antonio Pagot, diretor de órgão acusado de cobrar propina, solicitou férias na última tentativa de permanecer no cargo

João Domingos, Tânia Monteiro e Christiane Samarco, de O Estado de S.Paulo

05 de julho de 2011 | 23h00

BRASÍLIA - A presidente Dilma Rousseff determinou ao ministro dos Transportes, Alfredo Nascimento, a suspensão de todas as licitações de projetos, obras e serviços, bem como de aditivos com impacto financeiro, pelo prazo de 30 dias, do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) e da Engenharia, Construções e Ferrovias S.A. (Valec), principais braços operacionais da pasta.

 

Sob pressão, o ministro atendeu à ordem da presidente na terça-feira, 5, mesmo. A suspensão das licitações das duas empresas, porém, não afastou a crise motivada pela decisão de a presidente afastar os dirigentes do Dnit, Luiz Antonio Pagot, e da Valec, José Francisco das Neves, o Juquinha, e mais dois assessores do Ministério dos Transportes, suspeitos de envolvimento em irregularidades, conforme reportagem da revista Veja desta semana. Pagot e o PR, partido que apadrinhou o diretor afastado do Dnit, tentaram, em um último gesto, enfrentar Dilma Rousseff. 

 

No intuito de fugir do afastamento temporário determinado por Dilma, Pagot pediu férias para o período de 4 a 20 deste mês, prorrogáveis até o dia 5 de agosto. Segundo a assessoria do Dnit, as férias já estavam programadas. Mas, no governo, o sentimento foi de que o diretor decidiu confrontar a decisão da presidente de afastá-lo, usando para isso o estratagema das férias. "Ninguém pode ser demitido durante as férias. E quem sabe nesse período fica provada a inocência de Pagot", disse o líder do PR na Câmara, Lincoln Portela (MG).

 

Dilma, no entanto, não mudou de ideia. De acordo com informações do Palácio do Planalto, de férias ou não, Pagot está fora do cargo. A presidente considerou uma afronta a sua autoridade a conduta do dirigente do Dnit. Ele entrou na autarquia em 2007, pelas mãos do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Pagot tem padrinhos fortes. Um deles é o senador Blairo Maggi (PR-MT). Em Mato Grosso, aliás, comenta-se que ele voltará à chefia do Dnit em agosto, assim que terminarem as férias.

 

Segundo assessores do governo, a presidente quer para o lugar de Pagot o diretor de infraestrutura rodoviária do Dnit, Hideraldo Caron, petista com o qual trabalhou no Rio Grande do Sul. Mas o ministro dos Transportes prefere escolher para o lugar de Pagot o secretário executivo do Dnit, José Henrique Sadok de Sá. Para não aumentar a crise, Dilma até admitia recuar no início da noite, aceitando a sugestão de Nascimento.

 

Sob suspeita. A suspensão das licitações em todas as obras do Dnit e da Vale só não atingirá aquelas autorizadas previamente pela Secretaria Executiva do Ministério dos Transportes como de caráter inadiável, cuja paralisação possa comprometer a segurança de pessoas e o patrimônio da União.

 

Se no Dnit Luiz Antonio Pagot tirou férias, na Valec Neves foi mesmo afastado de suas funções. O Conselho de Administração da empresa reuniu-se em assembleia extraordinária e decidiu, por unanimidade, pelo afastamento temporário do presidente da estatal. De acordo com a assembleia, a decisão visou a "garantir o pleno andamento e transparência nos trabalhos de sindicância investigativa". Até a conclusão das investigações, responderá pela Valec o diretor administrativo-financeiro, Antonio Felipe Sanches Costa.

 

Problemas na base. Na terça-feira, a ministra das Relações Institucionais, Ideli Salvatti, se reuniu com líderes da base aliada na tentativa de evitar uma nova crise. Entre os presentes, estavam representantes do PR.

 

Mais que demissões sumárias em casos de denúncias, líderes aliados e do próprio PR temem as consequências do confronto direto com Pagot. Um expoente da base disse que ele permanece no cargo desde o governo Lula, está "muito irritado e quer falar no Congresso de qualquer maneira". Esse líder disse que "acuar um aliado contra a parede ou jogá-lo às feras" pode ter consequências imprevisíveis e gerar crise sem precedentes na gestão.

 

"Basta lembrar o que aconteceu quando jogaram o Roberto Jefferson (ex-deputado do PTB) às feras", recordou, referindo-se à crise do mensalão, denunciado por Jefferson no governo Lula, em 2005, gerando o maior escândalo das administrações do PT.

 

Nascimento participará de audiência no Senado, nas Comissões de Serviços de Infraestrutura e na de Meio Ambiente, onde prestará esclarecimentos sobre sua atuação na pasta. O encontro será na terça-feira. Ele deverá ir a uma sessão conjunta da Câmara.

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