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Dilma ignora conselhos e volta a falar em 'golpe' em carta aos senadores

Prestes a perder o mandato, Dilma quer deixar o documento como um registro histórico de sua resistência e causar constrangimento a Temer

Vera Rosa, O Estado de S. Paulo

15 de agosto de 2016 | 22h41

BRASÍLIA - Após muitas idas e vindas, a presidente afastada Dilma Rousseff decidiu deixar de lado o conselho de aliados e vai novamente se referir ao processo de impeachment como um “golpe”, na carta que será divulgada nesta terça-feira aos senadores. Prestes a perder o mandato, Dilma quer deixar o documento como um registro histórico de sua resistência e causar constrangimento ao presidente em exercício Michel Temer.

Em reunião com 15 dos 21 senadores aliados, na quarta-feira, a presidente afastada havia dado sinais de que aceitaria a sugestão para retirar a palavra “golpe” do texto, a fim de não melindrar os parlamentares e conquistar votos no julgamento final do processo de impeachment.

No dia seguinte, porém, Dilma recebeu representantes da Frente Brasil Popular, que foram contra essa estratégia. Todos destacaram que a carta aos senadores não apenas deveria bater na tecla do “golpe” como ser ainda mais incisiva, contendo forte tom de denúncia.

Houve até quem lembrasse ali a famosa carta do presidente Getúlio Vargas, que em 1954 deixou uma espécie de testamento político, informando ao povo que dera cabo à própria vida por causa de pressões de grupos contrários ao trabalhismo. O mês também era agosto.

Até esta segunda-feira, o texto escrito por Dilma tinha cinco páginas, mas ela disse a interlocutores que iria reduzi-lo. Faz mais de um mês que a presidente afastada tem encaixado e depois excluído propostas de suas anotações, na  tentativa de agradar a todos os setores. Pelo menos cinco versões diferentes já foram discutidas.

A Carta aos Senadores foi planejada pelos petistas para lançar diretrizes de um novo programa de governo, mas, a esta altura, até o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva avalia que a ideia perdeu o sentido.

Mesmo assim, Dilma pretende admitir erros em sua gestão, ainda que de forma genérica. Dirá, no entanto, que o que está em jogo agora não é o mandato de um presidente, mas, sim, o futuro da democracia. Ela também se mostrará disposta a atuar pela concertação nacional, respaldando a proposta de um plebiscito sobre a antecipação das eleições presidenciais de 2018, e manifestará apoio às investigações da Lava Jato.

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