Dilma fala com Obama por telefone, mas só decide na terça sobre viagem

A presidente anuncia sua decisão somente após conversar com o chanceler brasileiro, Luiz Figueiredo

Ampliada em 17.09, às 07h45, Lisandra Paraguassu e Tânia Monteiro - O Estado de S.Paulo

16 de setembro de 2013 | 19h56

BRASÍLIA - Depois de 20 minutos de conversa com o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, no início da noite de ontem, a presidente Dilma Rousseff afirmou que decidirá hoje se mantém a visita de Estado a Washington, marcada para 23 de outubro. A impressão nos bastidores do Planalto, depois do telefonema, era que ela continuava disposta a não viajar - mesmo reconhecendo que a iniciativa de Obama de lhe ligar era um passo adiante para melhorar o clima entre os dois governos.

Um dos argumentos da presidente era que a pauta da viagem, neste momento, tende a se concentrar na espionagem feita no País - e em seu gabinete - pela Agência de Segurança Nacional americana (NSA), sem trazer nenhum benefício para a relação entre os dois países. "O Brasil agirá neste caso com a maior seriedade, não abrindo mão, de maneira alguma, da nossa soberania, mas sem fazer bravata", avaliou o secretário-geral da Presidência, Gilberto Carvalho.

No início da crise, há dois meses, a reação americana ficou muito aquém do que esperava o Brasil. É que o encarregado de telefonar à presidente foi o vice-presidente americano Joe Biden - e Dilma não ficou satisfeita com o interlocutor escalado nem com o que ele disse. Na época, a conversa foi considerada "muito ruim" pelo Palácio do Planalto.

Na visita a Washington, na semana passada, o ministro das Relações Exteriores, Luiz Alberto Figueiredo, foi informado pela Casa Branca de que Obama falaria pessoalmente com Dilma sobre o caso - o que acabou acontecendo ontem.

Nem o Itamaraty nem a Presidência revelaram detalhes da conversa dos dois - que aconteceu às 18h30 e se concentrou na questão da espionagem. Figueiredo chegou mais cedo ao Planalto para fazer a Dilma um relato dos contatos na Casa Branca. Ele conversou longamente com a assessora de Segurança Nacional, Susan Rice, mas manteve absoluto segredo quanto aos detalhes desses encontros.

Na última sexta-feira, depois de uma reunião com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o governo revelou que Dilma só esperava a volta de Figueiredo para confirmar a intenção de cancelar a viagem - mais uma forma de pressão sobre os EUA. A versão corrente, então, era que Dilma talvez desistisse da viagem diante da falta de justificativas convincentes para a bisbilhotice norte-americana.

Temores. Um dos temores do governo brasileiro e da própria presidente é que, durante a viagem - uma visita de Estado com toda a pompa, onde a presidente comparece às sedes dos três poderes e participa até de um baile de gala a convite de Obama -, ocorra nova divulgação de extratos sobre a espionagem, distribuídos pelo ex-funcionário da CIA Edward Snowden. "Isso estragaria tudo", comentou um interlocutor de Dilma ouvido pelo Estado. Daí o pedido da presidente a Obama, na reunião de G-20, para ser informada de "tudo" o que havia de espionagem contra o Brasil.

Há duas semanas, a presidente já havia mandado cancelar a viagem da equipe preparatória, que cuida de toda a logística da visita e define os detalhes da agenda. A viagem ainda não foi remarcada, mas há uma folga de pelo menos duas semanas para o governo retomar o planejamento, se for o caso.

As negociações bilaterais para possíveis acordos a serem discutidos pelas duas partes continuam. Não houve, até agora, ordens da Presidência para que elas sejam suspensas e, por isso, há uma certa descrença, de parte do governo americano, de que Dilma estaria realmente disposta a cancelar a viagem.

Divididos. Mesmo entre os interlocutores da presidente há uma divisão quanto ao assunto. Enquanto setores mais radicais, especialmente do PT, querem que a presidente não vá, a parte mais ligada à diplomacia alega que não interessa a ninguém que as duas maiores economias do continente rompam relações ou que ela fiquem extremamente comprometidas, o que poderia acontecer com a negativa a uma visita de Estado que não foi proposta ao Brasil nos últimos 20 anos.

Especialmente a área econômica preocupa os diplomatas. As relações comerciais entre Brasil e Estados Unidos são muito fortes e várias negociações estão em curso, como a dispensa de vistos para viajantes de negócios frequentes e uma autorização de uso da base de Alcântara para lançamento de foguetes pelos americanos, além dos diversos investimentos de empresas dos Estados Unidos no Brasil.

Mesmo sem uma decisão, o Itamaraty já começava a pensar em um "plano B", caso Dilma decida de fato cancelar a viagem: seria organizada uma reunião "forte" com empresários durante a Assembleia-Geral das Nações Unidas, na próxima semana, em Nova York. Valeria como sinal de que, se as relações políticas estão ruins, as econômicas poderiam continuar sem maiores problemas.

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