Dilma diz ser 'pessoalmente' contra o aborto, mas que lidará com questão como presidente

Candidata também classificou defesa que Serra fez de privatizações como 'vacina' contra a estratégia petista de comparar Lula e FHC

Eduardo Kattah, de O Estado de S.Paulo

07 de outubro de 2010 | 19h31

BELO HORIZONTE - A candidata do PT á Presidência da República, Dilma Rousseff, disse nesta quinta-feira, 7, que a defesa feita por seu adversário, José Serra (PSDB), das privatizações no governo Fernando Henrique Cardoso, é uma "tentativa de se vacinar" contra a estratégia petista de comparar as gestões Lula e FHC. Em sua primeira visita a Minas no segundo turno, Dilma também manifestou de forma enfática sobre o aborto, ao afirmar que pessoalmente é contra, mas na Presidência da República não deixará de encarar o assunto como uma questão de saúde pública.

 

Durante uma passagem tumultuada pelo Mercado Central da capital mineira, a petista aproveitou para reagir no mesmo tom às declarações de Serra em encontro com aliados em Brasília, na quarta-feira. O tucano confrontou a estratégia petista, à qual chamou de "factóide" e "trololó". "Eles poderiam refazer as privatizações, mas não refizeram."

 

Dilma, por sua vez, indicou que a tática é mesmo colar no tucano a pecha de privatista, a exemplo da campanha que atingiu Geraldo Alckmin no segundo turno da eleição presidencial de 2006. "Acho que (a defesa de Serra das privatizações) é uma tentativa de se vacinar contra o fato de quando a gente começar a comparar o governo FHC com o presidente Lula vai ficar claro que enquanto eles vendiam ações da Petrobrás e arrecadavam US$ 5 bilhões - e vendiam ações - nós aumentamos as ações e obtivemos US$ 70 bilhões", disse, se referindo ao recente processo de capitalização da petrolífera brasileira.

 

"Eles querem evitar essa comparação. Nós somos contra a forma, o conteúdo e o sentido das privatizações. Por quê? Eles venderam R$ 100 bilhões do patrimônio público desse país e elevaram a dívida de 30% para 60% do Produto Interno Bruto."

 

Aborto

 

A campanha petista, providencialmente, escolheu a pequena capela Nossa Senhora de Fátima, no estacionamento do tradicional mercado de Belo Horizonte, para que Dilma falasse à imprensa. Ela foi recepcionada por jovens de congregações católicas e por representantes de igrejas evangélicas, entre eles o deputado federal reeleito Mário de Oliveira (PSC), presidente da Igreja do Evangelho Quadrangular, considerada uma das cinco maiores neopentecostais do País. Os religiosos presentes confiavam que a petista deixaria clara sua posição contra o aborto. "É uma questão que tem de ser esclarecida", disse Oliveira, antes da chegada de Dilma.

 

Representantes das congregações católicas - Agostinianos, Maristas e Sacramentinos de Nossa Senhora - preparam um manifesto que seria entregue à candidata do PT. Mas como o texto chegou na última hora não houve tempo para uma redação de consenso. "Nosso posicionamento é em defesa da vida, indiscriminadamente. Acreditamos que a Dilma é a favor da vida", afirmou João Campestre, dos Freis Agostinianos.

 

A petista recebeu a manifestação de apoio na capela, onde se espremiam políticos seguranças e jornalistas diante da tentativa da militância de chegar perto da candidata. Ao falar da polêmica, Dilma deu ênfase à sua posição pessoal.

 

"A minha posição pessoal é contra o aborto. (Mas) Como presidente da República eu não posso deixar de encarar. Eu não posso tratar essa questão como uma questão pessoal, só", destacou, alegando que tem sido vítima de uma campanha "clandestina", que "faz parte do submundo da política".

 

A candidata recorreu ao nascimento do neto para reforçar sua oposição ao aborto. "Seria muito estranho quando há uma manifestação de vida no seio da minha família porque meu neto acabou de nascer eu defender uma posição a favor do aborto. Sou contra o aborto, porque o aborto é uma violência contra a mulher."

 

Segundo Dilma, não há nenhuma referência ao aborto no seu programa de governo, por isso não há o que ser alterado. Ela afirmou, no entanto, que sua gestão irá tratar a questão como saúde pública. "Como presidente da República eu tenho de encarar o fato de que há milhares de jovens, adolescentes, que diante do aborto, fazem e adotam práticas porque elas estão abandonadas. Por exemplo, utilizam agulhas de tricô para interromper uma gravidez, que elas, sem apoio, não conseguem suportar", disse. "O Estado brasileiro não considerará essas mulheres como uma questão de polícia, mas uma questão de saúde pública e social. Nós temos é de prevenir que jovens desse país recorram a esse método."

 

Marina

 

Na rápida passagem por Belo Horizonte, Dilma reforçou e o fato de ter nascido na capital para dizer que sua eleição será "como se Minas chegasse novamente à Presidência da República".

 

Questionada sobre um eventual apoio de Marina Silva no segundo turno, ela lembrou já conversou por telefone com a candidata do PV e disse que é preciso esperar "as coisas serenarem". "Não concordo com esse tipo de relação de pressão", afirmou. "Eu respeito a Marina independentemente do apoio ou não."

 

A presidenciável do PV obteve em Minas 21,25% dos votos válidos, o que corresponde a 2,29 milhões de votos. Venceu em Belo Horizonte e outras grandes cidades do Estado. A estratégia da campanha lulista em Minas é justamente atacar a capital e região metropolitana, o sul e o sudeste do Estado, onde Dilma foi menos votada.

 

"O principal é incorporar todas as forças políticas que são aliadas do presidente Lula e que no primeiro turno estavam dispersas", observou a deputada federal Jô Moraes, presidente estadual do PC do B.

 

Garagem

 

Na visita ao Mercado Central, Dilma foi acompanhada pelo prefeito de Belo Horizonte Márcio Lacerda (PSB) e lideranças socialistas, que apoiaram a reeleição do governador Antonio Anastasia (PSDB) no plano estadual. A ideia inicial era que a candidata petista circulasse pelo mercado, mas a candidata chegou ao local e foi recepcionada por militantes com bandeiras e gritos de ordem. Formou-se um tumulto quando a petista se dirigiu à capela. Jornalistas seguranças e militantes pró-Dilma trocaram empurrões. A entrevista foi concedida em meio a palavras de ordem. "Chega de TV, o povo quer te ver", gritava a claque.

 

Diante da confusão, Dilma acabou visitando somente a garagem do mercado e não fez corpo a corpo com os comerciantes e clientes. Na saída, também tumultuada, petistas hostilizaram repórteres que estavam no local.

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