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Dilma diz que tem que 'encarar dificuldade' em vez de 'tampar o Sol com a peneira'

Presidente admitiu dificuldades durante inauguração de uma estação de bombeamento da transposição do rio São Francisco em Cabrobó, a 531 km do Recife

Daniel Carvalho , enviado especial, O Estado de S. Paulo

21 de agosto de 2015 | 14h36

Cabrobó - A presidente Dilma Rousseff voltou nesta sexta-feira, 21, a pedir esperança à população diante da crise. Ao inaugurar uma estação de bombeamento da transposição do rio São Francisco em Cabrobó, município pernambucano a 531 km do Recife, Dilma admitiu que o País passa por dificuldades e que teve dificuldades com o orçamento, mas disse que é preciso enfrenta-las em vez de "tampar o Sol com a peneira".

Atrasada em quase três anos e quase que duas vezes mais cara, a obra de transposição só deve levar de fato água à população em dezembro de 2016.

"Temos dificuldades? Temos sim. Ninguém tem que tampar o Sol com a peneira. Mas achar que está tudo ruim não é a forma pela qual a gente constrói canal. A gente constrói canal encarando a dificuldade de frente e ultrapassando a dificuldade com muita força no coração e com muita esperança", disse Dilma a uma plateia formada por movimentos sociais e entidades rurais ligadas ao PT.

A presidente disse que, apesar das dificuldades orçamentárias, não cortará programas sociais. "Tenho certeza que tem muita coisa que falta pra gente fazer. Assim como na casa de vocês, às vezes, vocês tem alguma dificuldade com o orçamento, o governo federal também teve. Assim como vocês escolhem onde vão apertar o cinto, nós também. Não vamos apertar o cinto nos programas essenciais para o País seguir em frente, os programas sociais e os programas como este aqui (transposição)", afirmou.

O evento teve faixas com a estrela do Partido dos Trabalhadores, vaias a políticos do PSB, legenda que rompeu com Dilma em 2013 e disputou contra ela a Presidência em 2014, e pedidos de postagem de fotos em redes sociais por parte do apresentador do evento.

Em seu discurso, Dilma explorou a figura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ainda muito forte no interior do Nordeste. "Me refiro nesta obra ao presidente Lula porque é uma obra que esteve colocada como possibilidade durante 150 anos, mas precisou que um nordestino fosse eleito presidente, que este nordestino tivesse sido expulso, praticamente, da sua casa aqui em Pernambuco, e tivesse vindo para São Paulo e soubesse o custo em termos de vidas, em termos de perspectiva de futuro e esperança que a seca impunha para a população do Nordeste. A vontade de fazer foi muito importante. Por isso sempre me refiro a ele. Ele teve um papel decisivo para que esta obra ocorresse", disse a presidente.

Dilma fez referência a Dom Pedro II, que teria idealizado a obra de transposição, mas o citou como rei e não imperador. "O rei deu uma mãozinha porque falou pelo menos que tinha que fazer", afirmou.

Dilma citou a transposição como medida para diminuir as desigualdades regionais. "O que o governo tem de fazer? Tem de fazer que esta luta seja mais igual, tem de garantir as oportunidades, que ninguém que vai correr uma corrida tenha 50 metros de vantagem e o outro não tenha os 50 metros de vantagem. Porque quem sair na frente vai ganhar e o outro vai perder", afirmou.

A presidente acionou uma motobomba inaugurando nesta sexta-feira um trecho de 45,9 km em Cabrobó entre o canal de aproximação, que liga o rio São Francisco à obra, e o reservatório de Terra Nova. Serão necessários dois meses para que a água tome toda esta parte da obra, enchendo os reservatórios de Tucutu e Terra Nova, ambos em Cabrobó.

A estação de bombeamento inaugurada no início desta tarde eleva a água do São Francisco a 36 metros de altura, o equivalente um prédio de 12 andares, com uma vazão de 12,4 m³/segundo.

A transposição do rio São Francisco, iniciada em 2007, deveria ter ficado pronta em 2012 a um custo nominal de R$ 4,5 bilhões, mas só deve ser concluída em dezembro de 2016 a R$ 8,2 bilhões, em valor nominal.

Os canais da transposição estão divididos em dois eixos, o norte, com 260 km e o leste, com 217 km. Até julho, 77,8% do total da obra estavam concluídos. Quando pronta, a transposição levará água a 12 milhões de pessoas em 390 municípios em Pernambuco, Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte.

Cobranças. Vaiado pela plateia de movimentos sociais e sindicatos rurais ligados ao PT em sua chegada e ao iniciar seu discurso, o prefeito de Cabrobó, Auricélio Torres (PSB), defendeu a presidente, mas também a deixou em saia justa ao fazer cobranças públicas. Ele já havia feito cobranças em maio do ano passado, quando Dilma visitou a obra.

"Tratamos a política com seriedade e muito longe de praticar a politica mesquinha daqueles que torcem pelo quanto pior, melhor. Estamos juntos e estamos solidários com a senhora neste momento de dificuldade. O mandato da senhora foi legitimado pelo povo brasileiro e é assim que deve ser. As pessoas que exercitam a democracia com responsabilidade pensam assim", disse inicialmente Torres.

No entanto, em seguida, disse a população de seu município ficaria "triste" se ele não fizesse algumas cobranças a ela. Cobrou um projeto de irrigação e 500 unidades do Minha Casa, Minha Vida no município. "Gostaríamos que a senhora tivesse um olhar diferenciado para esses pleitos nossos. Atendendo nossos pleitos, Cabrobó será eternamente grata à presidente Dilma Rousseff", afirmou o prefeito.

Além de Torres, houve vaias também para o governador de Pernambuco, Paulo Câmara (PSB), e para o senador Fernando Bezerra (PSB-PE). Eles eram aliados do ex-governador de Pernambuco Eduardo Campos (PSB), que morreu em um acidente aéreo no ano passado, quando enfrentava Dilma na disputa pela Presidência.

Índios. Protagonista de manifestação contra a transposição do rio São Francisco no ano passado, o cacique Aurivan dos Santos Barros, o Neguinho Trucá, 42 anos, acompanhou a cerimônia desta manhã no palco ao lado da presidente.

Ele disse que a tribo Trucá não fez protesto desta vez para que não se confundisse com os atos que pedem o impeachment da presidente. No entanto, ele disse que tentaria falar com ela para, novamente, manifestar sua discordância do projeto e cobrar as políticas públicas prometidas, segundo o cacique, no início das obras. "Somos contra a transposição. O projeto é um erro muito grande. O rio está morrendo. A transposição é um dos fatores que vai acabar com a vida do rio", disse Neguinho Trucá.

Em seu discurso, Dilma disse que encomendou aos Ministérios da Integração e do Planejamento um plano de revitalização do rio para a próxima década.

De acordo com o cacique, a transposição corta território Trucá, tribo que conta com 6.044 indígenas em quatro municípios sertanejos.

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