Evaristo Sá/AFP
Evaristo Sá/AFP

Dilma diz que o Brasil tem um 'veio golpista adormecido'

Em entrevista concedida a jornalistas estrangeiros, presidente disse estar sendo vítima de injustiça e fraude; ela voltou a dizer que oposição derrotada nas eleições de 2014 ampliou a crise.

Gustavo Porto, O Estado de S. Paulo

19 de abril de 2016 | 12h14

BRASÍLIA - A presidente Dilma Rousseff retomou nesta terça-feira, 19, em entrevista a jornalistas estrangeiros, as críticas ao processo de impeachment contra ela, cuja admissibilidade foi aprovada na Câmara e agora tramita no Senado. "Estou sendo vítima de um processo baseado em uma flagrante injustiça e fraude jurídica e política e, ao mesmo tempo, de um golpe. O Brasil tem um veio golpista adormecido", afirmou.

Dilma disse ter certeza que não houve um único presidente depois da redemocratização do Brasil que não enfrentou processo de impeachment no Congresso e lembrou que ela não pode ser julgada pela crise econômica do País. "Me culpam como se eu fosse responsável pelo fim do superciclo da commodities, como se no resto do mundo essas dificuldade não fossem em escala maior".

A presidente criticou parlamentares que falaram no dia da votação que o País cortou 10 milhões de empregos, mas que o montante é 2,6 milhões de cargos, "o que é uma lástima", de acordo com Dilma. "Se argumentação de crise econômica fosse argumento para tirar presidente, não teria um presidente em país desenvolvido", emendou.

Ela retomou ainda o discurso de que a crise foi ampliada por conta das eleições passadas, quando ela venceu o senador Aécio Neves (PSDB-MG) por uma margem estreita, de apenas 3,5 milhões de votos. "Essa eleição tornou a oposição derrotada bastante reativa e, com isso, começou um processo de desestabilização do mandato desde o início dele. Esse segundo mandato tem o signo da desestabilização política".

Dilma voltou também a criticar o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que segundo ela, tem práticas absolutamente condenáveis, entre elas colocar em votação as chamadas pautas-bomba, "medidas populistas que impactaram na rigidez". Ela citou, entre os exemplos, a que muda a correção de dívidas de Estados para juros simples, de juros compostos. "Isso, se aprovado, traria um rombo de R$ 300 bilhões. Todas as pautas-bomba já resultaram em R$ 140 bilhões de rombo", afirmou.

Em seguida, a presidente reservou um longo tempo para tentar explicar as chamadas pedaladas fiscais, base do pedido de impeachment. Segundo ela, os créditos suplementares não significam criação de despesa. "Dos R$ 95 bilhões em recursos analisados, maior parte é transferência, só R$ 2,5 bilhões não são", justificou.

Ainda segundo ela, é errada a informação de que os bancos públicos foram utilizados com irresponsabilidade fiscal e avaliou que as instituições financeiras prestaram serviços ao governo federal na área de transferência de renda. "Concordamos com TCU (Tribunal de Contas da União) em diminuir o tempo que o passivo ou ativo em bancos fica a descoberto". "TCU decidiu reduzir prazo para repasses a bancos em outubro e dezembro de 2015."

A presidente explicou ainda que havia de fato dinheiro não repassado a bancos, nos casos da diferença dos juros subsidiados, em programas como o Plano Safra, o Minha Casa, Minha Vida e o Programa de Sustentação do Investimento (PSI). "Pela boa prática da segurança jurídica, pagamos o passivo de R$ 58 bilhões no final do ano passado, são questões contábeis fiscais que não dizem respeito ao mau uso do dinheiro público. Só a forma de gestão financeira do governo federal."

Por isso, de acordo com ela, o impeachment é por questões contábeis e não pelo mau uso do dinheiro público. "Não tenho nenhum processo por corrupção e qualquer irregularidade com dolo ou má-fé. Sou vítima de um processo de meias verdades. O impeachment é previsto na Constituição, mas é necessário haver crime de responsabilidade", disse a presidente, repetindo que o processo é golpe por não haver o base legal para isso.

Dilma também retomou as críticas a Cunha, lembrou que é investigado por lavagem de dinheiro e por ter contas no exterior e só acatou o impeachment contra ela porque o governo não aceitou negociar votos para livrá-lo da comissão processante na Câmara. "Me sinto vítima de um processo no qual os meus julgadores, principalmente o presidente da Câmara, tem um retrospecto que não o abona para ser juiz da nada, mas para ser réu", afirmou.

Dilma citou também o vice-presidente da República, Michel Temer (PMDB), chamado novamente de "conspirador", citando o áudio vazado por ele no qual já falava como se estivesse no cargo.

No longo pronunciamento antes da entrevista, a presidente afirmou ainda que sem democracia o País não vai ter capacidade de retomar o crescimento. "Não é justa que tentem encurtamentos de caminho, que 'instabilizem' o País e a economia. É necessária uma grande repactuação democrática que passe pela rejeição desse processo de golpe".

Misoginia.  A presidente também considerou que houve um "componente forte de gênero" no tratamento dado a ela durante o processo de impeachment, pelo fato de ser mulher e comandar o País. "Em muitos casos, o tratamento dado a mim, inclusive em texto de órgão de imprensa, foi com misoginia. Se diz que mulher sobre pressão tem de ficar nervosa, histérica e desequilibrada. E tem outra ala que diz que ela não percebe o tamanho da crise", afirmou.

A presidente criticou ainda o fato de alguns a tratarem como "autista", justamente por se isolar. "Falam que sou autista, mas tenho um familiar nessa situação e é um baita desrespeito como tratam; é um preconceito", afirmou. "Não sou levada a me desesperar, e não ter capacidade de lutar pelas minhas convicções. Mas realmente têm atitudes comigo que não teriam com presidente homem", ratificou.

Bolsonaro. A presidente também considerou como lamentável o fato de o deputado Jair Bolsonaro (PSC-RJ) ter "homenageado" o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra durante o voto pela admissibilidade do processo de impeachment como ela. "A fala desse deputado é lamentável. Fui presa e torturada e esse senhor (Ustra) foi um dos maiores torturadores do Brasil e sobre ele recaem acusações de tortura e morte", disse. "É terrível alguém votar no julgamento em homenagem ao maior torturador que esse País conheceu", emendou.

Olimpíada.  Sobre os Jogos Olímpicos do Rio 2016, a presidente Dilma avaliou que o governo segue trabalhando bastante para viabilizar a competição no Brasil e ainda que acredita na retomada do crescimento do País. "Continuamos sendo a sétima e oitava economia do mundo e vamos galgar novos degraus. Acredito nisso, lutarei por isso e um dos motivos pelos quais tenho a tranquilidade de resistir é esse", afirmou. "Trabalhamos bastante para viabilizar os Jogos Olímpicos e todas as estruturas esportivas, a capacidade de se comunicarem com o mundo".

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