Dida Sampaio/AE
Dida Sampaio/AE

‘Dilma deve fazer a articulação política, pois orquestra só pode ter um regente’

Para ex-articulador de Lula, é ‘ilusão’ achar que as ministras Ideli e Gleisi farão interlocução com o Congresso sozinhas

Christiane Samarco - O Estado de S. Paulo,

24 de junho de 2011 | 21h32

BRASÍLIA - Com a autoridade de quem foi o articulador político do governo nas maiores crises da Era Lula, do mensalão à demissão do ministro José Dirceu, o deputado Aldo Rebelo (PC do B-SP) define a coordenação política como uma espécie de “pronto-socorro”. É para lá que convergem os “casos terminais da política”, isto é, “toda espécie de problema que os parlamentares não conseguem resolver nos vários ministérios”, diz.

Neste “cenário de guerra”, adverte, o coordenador político fica na linha de tiro para proteger o presidente. Mas, segundo ele, o novo esquema de coordenação montado pela presidente Dilma Rousseff após a queda de Antonio Palocci da Casa Civil não a exime da tarefa de articulação política. “Ela pode delegar e transferir responsabilidades, mas, no fim das contas, a orquestra só pode ter um regente”, diz o deputado, para quem o presidente é “mais do que líder político, é uma espécie de líder espiritual da Nação”.

Houve um momento, ainda no tempo do ministro José Dirceu, em que o sr. comparou a negociação das emendas no Planalto com o “porão da tortura”, tamanha era a dificuldade de se atender às demandas. Como foi isso?

Não me lembro de ter usado essa expressão. Lembro melhor das dificuldades. E era difícil porque tínhamos não só que atender às demandas do Congresso como também às de governadores e prefeitos. O desafio era administrar o dia a dia, mas, como a situação econômica melhorou, houve condições mais favoráveis no Orçamento e não tivemos derrotas significativas no Congresso.

É mais difícil negociar emendas ou cargos para a base?

O mais difícil são os cargos, porque as emendas têm um critério mais objetivo. Temos as de bancada e as individuais e você sabe exatamente quem você está atendendo. A demanda por cargos é mais difícil de administrar, porque há o critério técnico da administração e as indicações dos partidos.

Quando chegam as propostas indecentes e os pedidos absurdos, o articulador faz o quê?

De proposta indecente eu nem sequer tomei conhecimento. É possível conduzir a mediação dos conflitos no campo estrito da política.

Mas um pedido descabido de um parlamentar o sr. deve ter recebido.

Para começar, cada deputado se julga candidato natural a ministro. De ministério para baixo, qualquer parlamentar acha que é legítimo que ele ocupe o cargo ou indique alguém. Uma vez recebi uma lista de indicações de um senador para vários cargos e, como estranhei os nomes, chamei o líder do partido dele para saber do que se tratava. O líder bateu o olho e foi logo dizendo que não precisaria nem nomear, porque a lista já daria uma CPI. Claro que ninguém foi nomeado.

A crise política do governo Lula, com a demissão de José Dirceu, em 2005, e a crise da saída de Palocci, agora, se equivalem?

Em primeiro lugar é bom destacar que, em qualquer circunstância ou qualquer Presidência, a coordenação política atrai os conflitos e os problemas do governo. É uma encruzilhada onde todos os problemas transitam. Uma espécie de pronto-socorro. Para ali vão todos os desenganados. Você tentou resolver um problema no Ministério da Educação, e não resolveu. Tentou algo na Saúde, não conseguiu. Nas Minas e Energia, e nada. Tentou com seu líder na Câmara, com o presidente do Senado, e não conseguiu. Enfim, pode ter a certeza de que uma hora esse problema vai chegar na coordenação política.

Então a coordenação política é para resolver caso terminal?

Exatamente. É o caso dos desesperados. O que ninguém resolveu, ele vai ali para tentar resolver.

É por isso que esse cargo é uma espécie de catapulta que projeta ministros para fora da Esplanada? Só na gestão Lula foram sete ministros.

Os ministros ficam muito expostos. É como se, em uma guerra, ele estivesse na linha de tiro. Ao primeiro tiro, ele está à frente, exposto, porque não pode expor o presidente da República. O problema não pode passar dali. Ou resolve ou, muitas vezes, morre abraçado com o problema.

A votação do Código Florestal expôs uma situação oposta a esta que o sr. descreveu, em que a presidente Dilma foi puxada para dentro da derrota, e não protegida. Houve erro de coordenação?

Acho que houve erro grave, porque o líder do governo e os ministros responsáveis pela coordenação política não podem expor a presidente a um conflito com o Congresso.

Faltou ação política do Planalto? Antes da crise, falava-se que Palocci estava sobrecarregado e sem tempo de articular.

Acho que não houve a definição clara dos papéis. A coordenação política deve, mais do que pode, ser um exercício coletivo. Mas você tem a palavra daquele que responde pela atribuição, que está credenciado pelo presidente da República.

Isso significa que apenas um fala em nome do presidente, embora muitos ajudem a articular?

Exatamente. Você pode ter muitos interlocutores, mas todos cumprem o seu papel e as partes sabem que alguém ali fala em nome do presidente, para dizer sim ou para dizer não. Na reformulação da coordenação política, a hierarquia foi restabelecida porque a presidente deixou claro que a ministra Ideli Salvatti (Relações Institucionais) falará em nome dela. Mas hierarquia e disciplina não bastam. É preciso praticar a valorização da política. Certa vez perguntaram ao físico Albert Einstein por que o homem tinha dominado o ciclo do átomo e não tinha conseguido impedir a bomba atômica, e ele respondeu: “Meu filho, é porque a física é uma ciência muito mais simples do que a política”.

Pode um líder de governo ser eficiente sem interlocução direta com a presidente?

Não. O líder do governo precisa ter canal direto com o presidente, e com os ministros nem se fala. E os líderes da base e da oposição têm que entender que este líder está credenciado pelo presidente, não apenas para resolver os problemas, mas principalmente para as negociações dos projetos polêmicos. O líder tem que ter esta autoridade, porque muitas vezes pode até contrariar opiniões dentro do Palácio do Palácio. As opiniões do Palácio nem sempre levam em conta a realidade e são as mais bem informadas.

Depositar na ministra Ideli Salvatti, mesmo com o auxílio da ministra Gleisi, a expectativa de ela fará a interlocução com o Congresso é um erro?

É uma ilusão. As ministras Gleisi e Ideli têm qualidades políticas excepcionais. Podem ajudar a resolver parte importante dos conflitos, se credenciadas pela presidente para isto. O presidente não pode, a toda hora, cuidar das coisas do Congresso. Tem que arbitrar e resolver como instância de recurso. Os ministros precisam ser fortes para impedir que boa parte das questões cheguem ao presidente.

O sr. avalia que a presidente Dilma Rousseff tem hoje a exata noção da importância do Congresso azeitado em torno dos três líderes do governo – na Câmara, no Senado e no Congresso –, ou a mudança feita não sugeriu esta importância?

Acho que a presidente vai percebendo, nas formas de relacionar sua atividade como chefe do Executivo e ao mesmo tempo como a principal liderança política desta base. Esse papel é intransferível, incontornável.

A presidente tem quer fazer a articulação política do governo?

Tem de fazer, sim. Ele descentraliza, transfere um pouco as responsabilidades, mas, no fim das contas, a orquestra só pode ter um regente. Se levantar outro para reger ao mesmo tempo, os músicos não sabem mais o que fazer. Ou seja, usando a linguagem nordestina, o carreiro tem de tomar conta dos bois. Os bois nunca terão condições de orientar o carreiro.

Quando a presidente escolheu a ministra Gleisi, alguns aliados disseram que ela estava escalando a “Dilma da Dilma”, e que faltava o Lula para fazer política e articular. O sr. está dizendo que ela terá de ser o Lula de saias de seu próprio governo, gostando ou não de fazer política?

Além de chefiar o Executivo, o presidente ou a presidente têm um papel de liderança política e, mais do que isto, de liderança espiritual da Nação. O presidente tem de ser uma referência para o País, para o povo nos seus dramas, suas encruzilhadas. Cada um vai exercê-lo de acordo com sua personalidade, suas virtudes. Ela exerce este papel.

Este governo, quando assumiu, festejou muito a imensidão da base, mas administrar 15 partidos governistas não é mais problema que solução?

Vejo mais como solução. No tempo em que fui ministro, a base tinha poucos partidos e as dificuldades vieram daí. Havia pouca sustentação política na Câmara e no Senado.

Mas a pressão dos aliados não é muito maior com 15 partidos?

Se você oferecer participação proporcional à força dentro da base do governo, não vejo por que haveria problema. Problema é quando você passa a excluir, quando não há equilíbrio.

Ter o presidente de honra do PMDB, Michel Temer (SP), como vice-presidente da República é um fator que facilita a negociação do governo com o maior partido da base aliada?

Facilita sim. O PMDB hoje é o partido mais importante da base pela unidade que demonstrou. O PMDB votou unido no salário mínimo e no Código Florestal e o PT perdeu interlocução com os aliados. Não teve um papel protagonista na votação do Código. O vice-presidente Michel Temer é um fator de estabilidade para o governo porque tem responsabilidade direta na administração e como vice da presidente Dilma.

Líderes aliados dizem que o PMDB, com este peso, pode custar muito caro ao governo, em reivindicações. O PMDB tem um papel importante. Achar que custa caro, custa caro o quê?

O que custa caro é a ingovernabilidade, é um governo que não tem base de apoio nem condições de enfrentar os desafios no Congresso e na sociedade. O PMDB é um fator de estabilidade, ao contrário do que muita gente diz. Teria sido possível o presidente Fernando Henrique Cardoso governar oito anos sem apoio do PMDB? O presidente Lula governou em melhores condições no segundo mandato por causa do apoio do PMDB, que tem muitos prefeitos, deputados e senadores, e não vejo mal nisso.

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