Dilma defende atual autonomia do BC

Pré-candidata contraria Serra e diz que não é prudente mexer em time que está ganhando

Elder Ogliari, de O Estado de S.Paulo

11 Maio 2010 | 16h53

RIO GRANDE - A pré-candidata do PT à presidência da República, Dilma Rousseff, defendeu que o Banco Central mantenha sua atual autonomia operacional sem a necessidade de formalização da independência do órgão. "Do jeito como está é muito bom", afirmou em entrevista coletiva na cidade do Rio Grande, nesta terça-feira, 11. "Não é necessário a gente introduzir nenhuma modificação e não acho prudente mexer em time que está ganhando", reiterou, em manifestação provocada pelos repórteres, que queriam saber da reação da petista às declarações que seu adversário na corrida presidencial, José Serra (PSDB), fez na segunda-feira, quando afirmou que "o Banco Central não é a Santa Sé" e que sua autonomia deve ficar dentro de "certos parâmetros".

 

Na mesma coletiva, Dilma citou suas passagens pela Secretaria da Fazenda de Porto Alegre, Secretaria do Estado das Minas e Energia do Rio Grande do Sul (por duas vezes), Ministério das Minas e Energia e Casa Civil da Presidência da República para mostrar que tem conhecimento de administração pública. "Eu acredito que tenho uma experiência de gestão razoável, aliás, do ponto de vista da União, acho que das maiores", destacou. "Não tenho, entretanto, experiência eleitoral, e fico pensando se às vezes não é bom isso porque seria uma lufada de ar novo numa situação mais tradicional de se fazer política". Afirmou, ainda, que "o Brasil está pronto para ser governado por uma mulher e as mulheres estão prontas para governar o Brasil".

 

A ex-ministra-chefe da Casa Civil foi a Rio Grande fazer uma palestra para os cerca de 400 participantes do Seminário Rio Grande, Onde o Rio Grande Renasce, promovido pela Revista Voto com patrocínio das empresas Engevix, Toniollo, Busnello e prefeitura do Rio Grande. Segundo a organização do evento, os outros candidatos também estavam convidados, mas alegaram problemas de agenda para não viajar à cidade gaúcha.

 

Ao longo da palestra de cerca de 40 minutos, no qual foi aplaudida três vezes por um público formado por empresários, executivos e técnicos, e na entrevista de cerca de 20 minutos, Dilma tratou de demonstrar como o governo atual incentivou a retomada da indústria naval no Brasil. Do passado, lembrou que a campanha de Lula chegava a ser chamada de "irresponsável" em 2002, quando propunha produzir no Brasil os navios, plataformas e sondas que pudessem ser feitos no País. "Diziam que não sabíamos o que estávamos falando, não éramos competentes e não tínhamos condições de produzir", recordou, atribuindo a polêmica de 2002 aos tucanos. "A resposta nossa é essa realidade: a indústria naval que tinha 40 mil trabalhadores em 1979 passou a ter menos de 2 mil em 1998 e hoje tem mais de 45 mil".

 

Mesmo considerando que a indústria naval é um caminho sem volta, Dilma lançou dúvidas, na entrevista, sobre o futuro do segmento se houver mudança de governo. Sem citar adversários e seus planos, a pré-candidata petista advertiu que "depende de quem estiver à frente disso, pode haver acidentes de percurso". E tratou de citar exemplos. "Podem achar que não precisa nacionalizar tanto, que o conteúdo nacional não precisa ser esse".

 

Ao responder a outra pergunta, na qual foi indagada sobre a sinalização feita por Serra de que pode dar continuidade a programas do governo Lula, Dilma retomou as comparações. "Quem tem que provar que isso é possível é ele", provocou, para sustentar que já fez o que os outros prometem durante os sete anos e meio que permaneceu no governo. "Eu deixo a critério da população ver quem é mais próximo desse governo e mais identificado com a política de distribuição de renda e quem é mais com a estagnação, desemprego e desigualdade", reiterou. "Eu aposto na inteligência do povo brasileiro".

Em sua passagem pelo Rio Grande, Dilma lembrou algumas vezes que o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e a construção de estaleiros e plataformas no município gaúcho foram chamados de "virtuais" por adversários políticos. E citou que, por encomenda da Petrobras, já foi integrada uma plataforma petrolífera no Rio Grande e outras duas estão em construção. Também está quase pronto um estaleiro que será inaugurado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva no final do mês, assim como a ampliação dos melhores e dragagem do canal de acesso que vai tornar o porto concentrador de cargos. Além disso, as obras da duplicação da BR-392, entre Rio Grande e Pelotas, estão em andamento. A prefeitura local estima que os investimentos já feitos e programados para o período de 2005 a 2015 cheguem a R$ 14 bilhões, com geração de 15 mil empregos diretos.

 

Ninho tucano

 

Curiosamente, Rio Grande pode ser considerado um ninho de tucanos entre os municípios gaúchos. O PSDB local participa do governo municipal como aliado do prefeito Fábio Branco (PMDB) e tem os deputados estadual Adilson Troca e federal Claudio Diaz entre seus quadros. O PT não tem parlamentares representando a cidade. Dilma qualificou os critérios que o governo federal usou para definir investimentos na cidade como republicanos. "Jamais perguntamos a filiação partidária (para definir investimentos), ou seja, no jargão popular, o apito que alguém toca; tocamos todos juntos o apito do povo brasileiro", afirmou.

 

O deputado Diaz, que também é presidente do PSDB do Rio Grande do Sul, não entra em bate-boca quando o assunto é o Rio Grande. "Não vou criticar o governo federal por fazer investimento na cidade". O prefeito Fábio Branco esquiva-se de polêmicas ao dizer que vai seguir a orientação do PMDB estadual na próxima campanha política. No Estado, o partido é assediado tanto por Dilma quanto por Serra. Mesmo que haja uma adesão formal, nacional, à candidatura de Dilma, a maioria das lideranças locais tende a trabalhar por Serra. Enquanto espera a definição partidária, Branco evita esse assunto.

 

Carisma

 

Em outro trecho da conversa com os repórteres, Dilma disse ter saudade dos sete anos e meio que passou convivendo com o presidente Lula, elogiando o carisma inquestionável do ex-chefe. "Não vejo no Brasil alguém que possa rivalizar com ele nessa área", afirmou, para evitar comparações dela com o presidente, dizendo-se pré-candidata à disputa por levar adiante e fazer avançar o projeto que Lula encarna. A ex-ministra também admitiu que o discurso técnico estava adequado à plateia e disse que está preparada para fazer abordagens mais políticas ou informais de acordo com as circunstâncias.

Tuma Júnior

 

Questionada sobre a situação do secretário nacional de Justiça, Romeu Tuma Júnior, por relações com pessoas supostamente ligadas à máfia chinesa, Dilma repetiu que o caso deve ser apurado e, se comprovada alguma irregularidade,o servidor deve ser afastado do governo". Ao mesmo tempo advertiu que sua abordagem é conceitual. "A gente não julga ninguém previamente".

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