Dilma cobrará fidelidade do PDT, segundo analistas

Gesto de não convidar legenda para reunião de líderes serviria de indício de como o Palácio do Planalto pode agir com infieis da base aliada

GUSTAVO URIBE, da Agência Estado,

03 de março de 2011 | 18h10

O anúncio da presidente Dilma Rousseff de que manterá Carlos Lupi no Ministério do Trabalho inclui, nas entrelinhas, o recado de que, a partir de agora, o governo federal irá cobrar fidelidade plena do PDT, caso a sigla pretenda manter o seu espaço na Esplanada dos Ministérios. A avaliação é de cientistas políticos consultados pela Agência Estado, que acreditam que o gesto de Dilma, em não convidar a sigla para reunião de líderes de quarta-feira, 2, é uma mostra de como o Palácio do Planalto pode agir daqui para frente com as siglas da base aliada que se mostrarem infieis ao governo.

"O recado é de que só fica próximo das benesses do governo federal quem dança a música do Poder Executivo", disse o professor de Filosofia Política da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Roberto Romano. "Ela vai, a partir de agora, cobrar fidelidade de verdade do PDT", acrescentou o consultor da ONG Voto Consciente, Humberto Dantas.

Após reunião com Lupi na manhã desta quinta-feira, 3, Dilma confirmou a permanência do ministro na equipe de governo e disse que eventuais problemas na base de apoio devem ser resolvidos na esfera partidária. A declaração ameniza a crise entre governo e PDT, que não foi convidado a participar da reunião com líderes da base aliada.

O veto à sigla seria uma retaliação por integrantes da legenda terem se posicionado contra a proposta do governo de um salário mínimo de R$ 545. Os especialistas não acreditam que a turbulência leve o PDT a romper com o Planalto. "O PDT, desde que morreu Leonel Brizola, se tornou um partido sem muita orientação ideológica, ele corteja o poder", disse Romano. "O partido tem uma estrutura muito próxima do poder", acrescentou.

Votação. O professor da Unicamp diz não acreditar também que Dilma queira romper com o PDT. "A qualquer momento pode ter uma votação no Congresso Nacional e o apoio do PDT é um contrapeso às ambições do PMDB", disse. "É uma acomodação de começo de viagem".

Romano não avalia que as desavenças possam criar um racha no PDT, entre os grupos de Carlos Lupi e do sindicalista Paulo Pereira da Silva, o Paulinho, um dos maiores críticos do mínimo. De acordo com o especialista, o presidente da Força Sindical é uma das únicas lideranças de representação nacional da legenda. "O partido está entre o Poder Executivo e as centrais sindicais, ele tem de se manter na corda bamba", disse.

O consultor da ONG Voto Consciente considera que, na defesa do salário mínimo, Paulinho fez o seu papel como líder sindical, mas que em outras votações, que não sejam de interesse dos trabalhadores, ele deve votar em sintonia com o Planalto. "O mais provável é que o Paulinho seja enquadrado pelos benefícios trazidos ao partido por ser da base de apoio do governo".

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