Dilma cobra ‘tudo’ sobre espionagem, e Obama vê ‘grande tensão’ na relação

No encerramento da reunião do G20 na Rússia, brasileira diz que suspeita de que suas mensagens tenham sido monitoradas é ‘inadmissível’; americano afirma que ‘entende as preocupações’

Andrei Netto , O Estado de S. Paulo

06 de setembro de 2013 | 23h33

SÃO PETERSBURGO - Com um discurso enfático, a presidente Dilma Rousseff afirmou nesta sexta-feira, 6, em São Petersburgo, na Rússia, ter dado um ultimato até quarta-feira ao presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, para que esclareça "tudo" sobre a suspeita de espionagem de mensagens e ligações telefônicas do Palácio do Planalto e de ministros brasileiros.

A pressão veio acompanhada da ameaça de cancelar a visita de Estado a Washington marcada para outubro caso as explicações não sejam convincentes. Também na Rússia, o americano reconheceu a "grande tensão" nas relações bilaterais.

O diálogo de Dilma e Obama sobre espionagem aconteceu na noite de quinta-feira, 5, após a primeira plenária da cúpula do G20. A discussão se prolongou e invadiu o horário do jantar, para o qual o americano se atrasou.

Pela manhã, Dilma não compareceu à segunda sessão plenária, alegando ter programado encontros bilaterais com Cingapura e Coreia do Sul - que acabaram não acontecendo. Em seu lugar, compareceu o ministro da Fazenda, Guido Mantega, que em razão do protocolo russo se sentou ao lado de Obama, como a presidente havia feito na primeira reunião do grupo.

No início da tarde de ontem, antes de embarcar de volta a Brasília, Dilma falou sobre o encontro, sempre conferindo anotações. A presidente disse ter transmitido a Obama sua "indignação pessoal e do conjunto do País" "às denúncias de espionagem contra o meu governo, as embaixadas e empresas e cidadãos brasileiros pela Agência Nacional de Segurança (NSA) dos EUA".

"Fiz ele ver que o tipo de relacionamento que nós tínhamos, entre grandes democracias desta parte do mundo, é incompatível com um ato ou atos de espionagem, com a convivência democrática entre países amigos", descreveu ela.

Dilma ressaltou que o Brasil é uma democracia sem conflitos étnicos e religiosos, sem grupos terroristas e armas nucleares.

"Essas características jogam por terra a justificativa de que todos os atos de espionagem sejam uma forma de proteção contra o terrorismo", disse a presidente, concluindo que o caso tem a ver com "fatores geopolíticos, estratégicos ou comerciais e econômicos". "É inadmissível porque se tratam de países com uma tradição de relacionamento histórica."

Responsabilidade. Dilma disse que Obama "assumiu responsabilidade direta e pessoal" sobre o esclarecimento dos fatos. Ela se mostrou insatisfeita com a resposta já dada pelo vice-presidente dos EUA, Joe Biden, e teria imposto que a resposta do governo americano seja encaminhada até quarta, quando o chanceler Luiz Alberto Figueiredo vai se encontrar com a assessora de Segurança Nacional dos EUA, Susan Rice. "Ele disse que se dispunha a providenciar todas as medidas que nós considerássemos suficientes."

Caso o Brasil não considere as explicações suficientes, a viagem a Washington deve ser cancelada. "O presidente Obama declarou que queria criar as condições políticas para a minha viagem e sabia que isso passava pela adoção de medidas em consonância com as requeridas pelo governo brasileiro. Ou seja, a minha viagem depende de condições políticas." Segundo a presidente, "se não houver condições políticas, não se vai".

Questionada sobre que esclarecimentos pediu, Dilma foi direta: "Eu quero saber tudo o que tem. A palavra tudo é muito sintética. Tudo. Em inglês, everything." A avaliação brasileira da resposta americana será feita com calma, disse ela. "Não esperem que quarta seja um dia D", afirmou.

Minutos depois, o subsecretário de Segurança Nacional, Ben Rhodes, disse que o governo responderá à "posição muito forte do Brasil". E, no fim da tarde, Obama abordou o tema. Reconheceu que os EUA têm uma "capacidade maior" de espionagem e que as novas tecnologias facilitam o acesso à informações confidenciais, o que abre espaço para exageros. "Porque podemos ter informação, não necessariamente significa que sempre devemos ter."

"Nós entendemos suas preocupações e as das populações do México e do Brasil", disse, "e nós vamos trabalhar com suas equipes para resolver o que é uma grande fonte de tensão".

Obama ainda elogiou o Brasil, "um país incrivelmente importante", um "espantoso caso de sucesso em termos de transição do autoritarismo para a democracia" e "uma das mais dinâmicas economias do mundo". Por se tratarem das duas "maiores nações do hemisfério", os interesses não podem ser minados pelo caso, disse. "Temos oportunidades das quais ambos queremos tirar vantagens."

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