Dilma: carta é recurso para combater 'central de boatos'

A candidata do PT à sucessão presidencial, Dilma Rousseff, disse que a carta que divulgou na tarde de hoje, na qual se compromete a manter a legislação atual referente ao aborto, tem como objetivo combater o que chamou de "central de boatos" supostamente organizada pelo PSDB contra sua candidatura. "A carta é uma manifestação e dá aos pastores que apoiam a minha candidatura os instrumentos necessários para combater a central de boatos que assola o País", afirmou.

ANNE WARTH, Agência Estado

15 de outubro de 2010 | 19h53

Em entrevista coletiva concedida após participar de ato político no Palácio do Trabalhador, na capital paulista, Dilma disse que o documento é direcionado a pastores e lideranças políticas, como o deputado federal Walter Pinheiro (PT-BA) e o senador Marcelo Crivella (PRB-RJ), para que eles possam esclarecer o posicionamento da candidata sobre a questão para os fiéis.

"A carta só serve para uma coisa muito elementar: para que a verdade triunfe", afirmou a petista. "Não se pode instigar o ódio religioso para se ganhar eleição. Isso é algo medieval", criticou ela, referindo-se a uma manifestação da mulher do candidato José Serra (PSDB), Mônica, de que Dilma é a favor da "morte de criancinhas".

Dilma citou Sebastião (sic) Ponte Preta, referindo-se ao heterônimo do cronista Sérgio Porto, Stanislaw Ponte Preta. De acordo com a candidata, o personagem afirmava haver uma "central de besteiras" no País durante a ditadura militar. Na verdade, Stanislaw dizia haver um "festival de besteiras". "Hoje não há mais isso, até porque (ele) estava se referindo à ditadura naquela época. Mas há uma central de boatos", afirmou a candidata.

Dilma enfatizou que o Estado é laico e que é preciso respeitar essa característica. A petista foi questionada se faria também uma carta aos ateus. "Os ateus também convivem neste País", respondeu. "Pelo fato do Estado ser laico, e de nenhuma religião poder assumir o Estado, é muito importante que esses boatos, baseados no ódio religioso, não vinguem. Porque é ruim para todos", afirmou.

Educação

No Dia do Professor, comemorado hoje, Dilma fez um discurso em favor da manutenção dos investimentos em educação e prometeu salários dignos, plano de carreira e qualificação para os professores da rede pública de ensino. Ela acusou o governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso de sucatear as universidades federais e aproveitou para criticar seu adversário na disputa presidencial, José Serra (PSDB), por sua relação com os professores estaduais na época em que foi governador de São Paulo.

"Não acho correto receber professor com cassetete ou ter uma dificuldade imensa para estabelecer o diálogo. Nem sempre as coisas são coincidentes entre uma categoria e o governo. As reivindicações e visões podem ser diferentes. Mas o diálogo é crucial e eu me comprometo com o diálogo com o professor", afirmou.

A candidata do PT também criticou o fato de mais de 100 mil professores na rede pública estadual de São Paulo estarem contratados de forma temporária. "Eu fico estarrecida com essa questão aqui no Estado de São Paulo, de que uma parte expressiva dos professores, mais de 100 mil entre 216 mil, são temporários, depois de 16 anos de governos do PSDB."

Dilma disse ainda que a educação é uma das formas para eliminar as desigualdades sociais no País. A candidata defendeu o investimento nas universidades federais, onde se produz a maior parte das pesquisas no Brasil.

Vítimas

Do ato de hoje, participaram cerca mil pessoas, entre deputados, senadores e lideranças petistas e sindicais, além de representantes da área de ensino, como a presidente do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial de São Paulo (Apeoesp), Maria Izabel Azevedo Noronha, que fez um dos discursos mais inflamados contra o tucano.

"Serra tratou os professores com balas e cassetetes", afirmou. "Tome vergonha na cara e olhe o salários dos profissionais de educação do Estado de São Paulo." O assessor especial para Assuntos Internacionais da Presidência da República e um dos coordenadores da campanha da candidata petista, Marco Aurélio Garcia, disse que os professores são uma das "maiores vítimas" do governo de Serra.

Marcaram presença no evento o presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), Roberto Leão, o presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), Augusto Chagas, o reitor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Amaro Lins, e a professora de filosofia da Universidade de São Paulo (USP) Marilena Chauí. Também estavam as lideranças religiosas Gabriel Chalita, eleito deputado federal pelo PSB, e o padre Júlio Lancellotti. Dilma vestia uma camiseta branca com o slogan: "Educação Infantil. 100% Dilma."

Em seu discurso, Dilma pediu que os eleitores conquistem votos para a sua candidatura até o dia 31 de outubro com o mesmo vigor com que participaram do ato. "Estou sofrendo um processo parecido com o que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva enfrentou em 2002. Falaram que ele iria mudar as cores da bandeira brasileira, proibir religiões e instaurar o caos. Fomos às ruas, dissemos não e a esperança venceu o medo", afirmou.

"Neste momento, estão em questão dois projetos para o Brasil, e quanto mais se lançam boatos, mais eles tentam esconder que se tratam de dois projetos muito diferentes." Dilma disse ainda que Serra pretende privatizar a Petrobras e o pré-sal. "Eles vivem querendo privatizar, eles querem privatizar o pré-sal, nosso passaporte para o futuro", afirmou.

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