NILTON FUKUDA | ESTADÃO CONTEÚDO
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Dilma busca atalho para crescimento e põe País na recessão

“O transatlântico mudou de rumo.” Com essa frase, proferida há dez anos, o então ministro da Fazenda, Guido Mantega, inaugurava uma guinada na política econômica brasileira.

Lu Aiko Otta / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

12 de maio de 2016 | 05h00

A receita clássica aplicada desde os anos 1990, um tripé que combinava regime de metas de inflação, câmbio flutuante e contas públicas no azul para controlar o endividamento público, começou aos poucos a ser trocada por outro modelo, baseado no crédito, nos juros baixos e no Estado como centro irradiador de estímulos para o crescimento econômico. Aquilo que, alguns anos depois, no governo de Dilma Rousseff, foi batizado de “nova matriz macroeconômica”.

Segundo especialistas ouvidos pelo Estado, está naquela mudança de rota a raiz do desastre econômico hoje vivido pelo País. Dilma já recebeu das mãos de seu antecessor, Luiz Inácio Lula da Silva, uma economia com problemas. Mas se mostrou incapaz de corrigi-la – e isso alimentou a perda de apoio político que culminou em seu afastamento.

“O ovo da serpente foi acreditar que o modelo de crescimento via poupança externa tinha vindo para ficar”, avalia o economista Felipe Salto, um especialista em contas públicas que atua no gabinete do senador José Serra (PSDB-SP).

O Brasil foi beneficiado, entre 2003 e 2011, por um boom nos preços das commodities e um forte fluxo de dólares para investimentos financeiros em busca dos juros altos pagos pelo País. A economia cresceu, a arrecadação federal bateu recorde atrás de recorde e o governo acreditou ter encontrado uma fórmula de crescimento com distribuição de renda.

Naquele período, com os cofres cheios, foram tomadas decisões como a política de valorização do salário mínimo e os reajustes dos servidores. Agora, com as receitas em queda, essas medidas se mostram insustentáveis. “Eles não aproveitaram a bonança para se precaver contra problemas que viriam depois”, comentou o professor Nelson Marconi, da Fundação Getúlio Vargas em São Paulo (FGV-SP).

Estímulos. A arrecadação forte do primeiro mandato de Lula deu suporte às primeiras medidas de estímulo setorial, uma receita que ganhou força e forma na crise de 2008 e 2009. Com o mundo adotando políticas de estímulo à economia, o governo aprofundou a estratégia de cortar tributos, conceder créditos subsidiados e abrir os cofres do Tesouro para baratear casas populares, combustíveis, contas de luz e até eletrodomésticos.

Marconi nota que, mesmo antes da crise, já estava em curso um processo de enfraquecimento da indústria, que hoje está na ponta mais aguda da recessão. Isso porque o dólar abundante havia facilitado fortemente a entrada de produtos importados. Quando a economia começou a patinar e o governo respondeu com estímulos ao consumo, isso beneficiou produtos fabricados fora do País. “Havia um vazamento grande da demanda”, comentou Marconi. Mesmo ajudada, a indústria não conseguiu reagir.

Isso prosseguiu até depois de 2011, quando o ciclo de bonança das commodities acabou e os cofres públicos, mais magros, começaram a sentir o efeito de tantas “bondades”. Mesmo assim, veio uma sequência de pacotes de estímulo que aprofundaram os problemas fiscais do governo. Esses, por sua vez, foram disfarçados pela chamada “contabilidade criativa” e as hoje célebres “pedaladas”.

A fórmula de estímulos foi tão usada que, em março passado, o ministro da Fazenda, Nelson Barbosa, reconheceu: “Há hoje um consenso de que algumas desonerações foram longe demais”. Por outro lado, ele defendeu as medidas adotadas a partir de 2008. “Sem dúvida nenhuma, essas medidas anticíclicas retardaram a internalização da crise econômica internacional”, afirmou.

Com tantos estímulos ao consumo, o governo teve dificuldades em controlar a inflação. Desde 2009, quando atingiu 4,31%, a taxa tem se mantido acima do centro da meta, de 4,5%. Foi por essa razão que fracassou a tentativa, em 2012, de forçar a redução da taxa de juros para 7,25% ao ano, com a inflação rodando na casa dos 5%.

Lava Jato. O final do primeiro mandato de Dilma foi marcado também pelo início da Operação Lava Jato, da Polícia Federal, que pegou em cheio a Petrobrás e as grandes empreiteiras do País. Iniciada em março de 2014, ela nocauteou dois grandes setores da economia. Para piorar, as cotações internacionais de petróleo entraram em queda a partir de setembro, criando problemas de caixa para a estatal.

“Nós nunca fomos uma potência”, afirma o professor Plínio Soares de Arruda Sampaio Júnior, da Universidade de Campinas (Unicamp). Para ele, o que se passou no Brasil nos períodos de Lula e Dilma foi um ciclo típico das economias em desenvolvimento: um surto de crescimento seguido por uma crise. A razão de o Brasil não ter jamais deixado a “terceira divisão” é a desindustrialização, cuja origem ele localiza na crise da dívida externa dos anos 1980.

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