Dilma atribui a Lula 'nova etapa' de combate à corrupção no Brasil

Em entrevista ao jornal francês 'Le Monde', presidente diz que 'não tolera a corrupção'.

Daniela Fernandes, BBC

13 de dezembro de 2012 | 12h54

A presidente Dilma Rousseff atribuiu, em entrevista ao jornal Le Monde, ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva "uma nova etapa de governança" no Brasil.

"O Ministério Público é independente e a Polícia Federal investiga, prende e pune. E quem começou essa nova etapa de governança foi o ex-presidente Lula", afirmou a presidente ao jornal.

"Eu não tolero a corrupção e meu governo também não. Se as suspeitas forem fundamentadas, a pessoa tem de deixar o cargo. É necessário, claro, não confundir essas investigações com a caça às bruxas que ocorre nos regimes totalitários", disse Dilma. "Todos que utilizam recursos públicos devem prestar contas, caso contrário a corrupção se alastra."

O vespertino francês, com a data de sexta-feira, publica uma grande foto de Dilma na capa, com o título, entre aspas, "Eu não tolero a corrupção".

O Le Monde escreve sobre as recentes denúncias envolvendo Lula, acusado de envolvimento no mensalão pelo condenado como operador do esquema, Marcos Valério, segundo revelações do jornal O Estado de São Paulo, que teve acesso a um depoimento de Valério à Procuradoria Geral da República.

De acordo com Valério, Lula teria dado seu aval para empréstimos bancários que ajudaram a financiar o mensalão e teria tido parte de suas despesas pessoais pagas com os recursos utilizados para a compra de votos de parlamentares. Lula disse que as declarações são uma "mentira".

'Instituições virtuosas'

Ao Le Monde, Dilma afirmou também que "não são as pessoas que devem ser virtuosas, mas as instituições" e que a sociedade deve ter acesso a todos os dados governamentais.

Dilma encerrou ontem uma visita de Estado de dois dias à França. Na terça-feira, a presidente declarara, em uma coletiva conjunta com o líder francês, François Hollande, considerar "lamentável essa tentativa de desgastar a imagem de Lula".

A entrevista exclusiva de Dilma ao Le Monde, realizada na quarta-feira, pouco antes de a presidente viajar para a Rússia, aborda também a fraca taxa de crescimento da economia brasileira, a desigualdade social e até a questão dos índios e a usina hidrelétrica de Belo Monte.

Dilma afirmou ainda que "não é o momento" de pensar em sua reeleição e que isso seria "colocar a carroça antes dos bois", já que ela ainda tem "dois anos intensos de governo pela frente".

A presidente declarou ao jornal que a economia brasileira "está em uma frase de transição", se referindo às recentes reduções nas taxas de juros do país, que provocaram mudanças na rentabilidade dos investimentos financeiros.

"O aumento do investimento produtivo ainda não foi substituído pela queda dos investimentos financeiros", explicou Dilma, acrescentando que a valorização do real prejudicou a economia brasileira.

Trem e petróleo

Dilma também reiterou declarações feitas durante um evento com empresários franceses, na quarta-feira, de que o Brasil vai investir em infraestrutura e elevar sua competitividade para estimular o crescimento econômico.

"Se não aumentarmos os níveis de investimentos (em infraestrutura), não atingiremos um crescimento acelerado, capaz de dar continuidade à inclusão social", afirmou.

"Nós lançamos nesta quinta-feira o edital para a licitação do Trem de Alta Velocidade. Dois blocos de petróleo em águas profundas serão licitados em 2013 (em março e novembro). Nós abriremos portos e aumentaremos a capacidade dos aeroportos e também vamos construir 15 mil quilômetros de ferrovias."

"Agora, queremos superar os obstáculos ao crescimento com a redução dos encargos trabalhistas, a expansão do crédito, mas sem bolhas, e a desvalorização do real", afirmou a presidente ao jornal. BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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