Evaristo Sá/AP Photo
Evaristo Sá/AP Photo

Dilma afirma que governo Temer transformou CGU em ministério para 'tornar obscura a transparência'

Em lançamento de livro em Brasília, presidente afastada voltou a acusar o governo interino de aplicar 'golpe' na democracia'

Igor Gadelha, O Estado de S.Paulo

31 de maio de 2016 | 07h35

BRASÍLIA - A presidente afastada Dilma Rousseff afirmou na noite de segunda-feira, 30, que a demissão do ministro da Transparência, Fiscalização e Controle, Fabiano Silveira, deixou claro o objetivo do governo Michel Temer de tornar "obscura" a transparência do governo federal.

"Nós nunca tivemos um ministro da Controladoria-Geral da União (CGU) afastado. O nosso ministro da CGU nunca deixou de fazer sua função que é a transparência do governo", afirmou a petista durante evento de lançamento do livro "A Resistência ao Golpe de 2016", na Universidade de Brasília (UnB).

Silveira apresentou carta de demissão nesta segunda-feira, após divulgação de áudios nesse domingo, 29, pela TV Globo, em que ele orienta o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), sobre como agir nas investigações da operação Lava Jato. Foi o segundo ministro de Temer a cair desde que ele assumiu o governo interinamente.

Para Dilma Rousseff, a demissão do ministro deixa claro o real objetivo que levou Temer a transformar a CGU em Ministério da Transparência, Fiscalização e Controle. "Primeiro pensei que era uma jogada de marketing. Agora tenho certeza que o objetivo era tornar obscura a transparência", afirmou a petista. 

Parasita. Durante o evento em Brasília, Dilma também afirmou que uma "árvore democrática" sendo destruída por "parasita" é um exemplo do "golpe" do qual ela diz ser alvo, assim como a imagem de uma árvore cortada por um machado foi o símbolo do golpe militar de 1964.

"Esse é um golpe que se torna diferente pelo fato de que não interrompe o processo democrático, ele corrói o processo democrático. (...) É como se tornasse um parasita que vem por dentro desse processo isolar. Mas do que isolar, vem transformar esse momento democrático que o Brasil vive desde a volta da democracia", disse a petista a uma plateia de professores e estudantes, sem mencionar diretamente quem seria o "parasita".

"A árvore democrática sendo destruída por um parasita é um exemplo desse golpe. Por isso, temos que lutar contra esse golpe", declarou. Para a petista, o "golpe" tem dois motivos claros: um é "parar a (Operação) Lava Jato". "O outro motivo é impedir que continuemos com nossa política de inclusão social", acrescentou a presidente afastada.  

Dilma afirmou que as gravações feitas pelo ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado (PMDB)mostram que os articuladores de seu impeachment querem "evitar" que seus crimes sejam desvendados, "que aquilo que foi feito e que foi objeto de práticas irregulares, ilegais e corruptas seja desmascarado". 

Em sua fala, a presidente afastada também criticou anúncios feitos pelo governo Temer desde que ele assumiu a presidência interina. Para ela, a decisão de não contratar mais médicos estrangeiros significa "um grande preconceito contra médicos cubanos". Ela criticou também fala do ministro da Saúde, Ricardo Barros, de que o SUS "não cabe no Orçamento". "Isso significa alijar uma parte da população do acesso à saúde", disse.

Dilma disparou críticas ainda à decisão do Ministério das Cidades de Temer de acabar com o "Minha Casa, Minha Vida" Entidades, voltado para os movimentos sociais. Para a petista, a decisão "demonstra absoluto desconhecimento da história", pois, segundo ela, essa modalidade do programa foi criada por meio de projeto de Lei de iniciativa popular que movimentos por moradia articularam.

"O mesmo se diga do Bolsa Família. Focar significa corta daqui, corta dali e fica 5%, que são 10 milhões de pessoas", afirmou. A petista criticou ainda o fato de Temer não ter colocado nenhuma mulher para ocupar cargo no primeiroe escalão. Para ela, esse fato demostra que a administração do peemedebista é um governo de "homens brancos, velhos e ricos". 

Dilma ainda pediu que os militantes enfrentem o processo de impeachment com "coragem", pois os articuladores de seu impeachment tem um "conjunto de armamentos sofisticados": apoio da "grande imprensa", de alguns segmentos empresariais e, do parlamento brasileiro. "Não podemos esquecer que o Eduardo Cunha (presidente afastado da Câmara) está cada dia mais vivo e sobrevivendo", disse. 

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