Dida Sampaio|Estadão
Dida Sampaio|Estadão

Após reunião com aliados, Dilma revê tom de carta a senadores

Petista chegou a defender a inclusão do termo 'golpe' no documento, mas aceitou os argumentos de que chamar parlamentares de golpistas pode ampliar o clima de hostilidade

Vera Rosa, O Estado de S.Paulo

10 de agosto de 2016 | 17h42

BRASÍLIA - A presidente afastada Dilma Rousseff indicou nesta quarta-feira, 10, que deve retirar a palavra “golpe” da carta que vai divulgar, nos próximos dias, quando se referir ao impeachment. Em almoço com senadores aliados, menos de 24 horas depois de virar ré no processo, Dilma chegou a defender a inclusão do termo, mas aceitou os argumentos de que chamar parlamentares de golpistas, neste momento, pode ampliar o clima de hostilidade e fazê-la perder ainda mais votos.

A versão definitiva da Carta aos Senadores e ao Povo Brasileiro, porém, ainda não está fechada. Enquanto a maioria dos senadores presentes à reunião disse a Dilma que ela pode se referir ao impeachment, se aprovado, como uma “violação à Constituição”, o senador Lindbergh Farias (PT-RJ) afirmou que era preciso ser mais enfático. “Eu acho que a carta poderá ter uma formulação que deixe claro estar havendo um golpe, sim. Isso não pode ficar só no discurso do PT e na defesa jurídica”, insistiu Lindbergh.

“O acordo com a presidente foi para que não haja menção à expressão golpe parlamentar. Se mudarem de novo, estarão quebrando o acordo”, observou o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP).

A carta aos senadores está sendo reescrita pela quinta vez. Nela, Dilma vai pregar a concertação nacional e manifestar apoio às investigações da Operação Lava Jato. O documento terá frases de efeito. No esboço que foi mostrado aos senadores, a presidente afastada diz que seu partido é o Brasil e assume erros políticos no relacionamento com o Congresso.

Embora nos bastidores o impeachment seja considerado irreversível, os aliados da presidente afastada procuram, em público, demonstrar resistência. Na madrugada de ontem, o Senado decidiu, por 59 votos favoráveis e 21 contrários, que Dilma irá a julgamento na Casa. Para que ela deixe definitivamente o cargo são necessários 54 votos e o veredicto final, no plenário do Senado, deve ser tomado no fim deste mês.

Durante o almoço, no Palácio da Alvorada, a petista foi aconselhada por senadores a demonstrar mais seus sentimentos no texto. A ideia é que seja “mais Dilma e menos presidente”. Em conversas reservadas, o comentário é que, como ela está demorando muito para divulgar a carta – planejada para ser uma espécie de “programa da volta” –, não adianta mais, agora, abordar diretrizes de governo.

Plebiscito. O presidente do PT, Rui Falcão, manifestou, mais uma vez, sua posição contrária à proposta de convocação de um plebiscito para antecipar as eleições de 2018, sob o argumento de que, na prática, isso é inviável.

Dilma, porém, discordou de Falcão. “Vou manter o plebiscito”, afirmou ela. A ideia é a principal bandeira da carta aos senadores. “Apesar das posições diferentes, dissemos ali que a presidente não perderá apoio por causa desse assunto. Isso não vai ser motivo de crise nem com o PT nem os partidos aliados nem com os movimentos sociais”, amenizou o senador Humberto Costa (PT-PE).

No documento, a ser divulgado até terça-feira, com a presença da imprensa internacional, Dilma vai destacar que, se retornar ao cargo, fará um governo de transição para possibilitar a pacificação do País. O termo é sempre usado pelo presidente em exercício, Michel Temer.

Além de declarar apoio à Lava Jato, ela também se comprometerá a não nomear para o governo nenhum investigado por corrupção, caso consiga reassumir sua cadeira no Palácio do Planalto. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva não participou do almoço com Dilma, que também contou com outros presidentes de partidos aliados.

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