Dilema profissional atormenta juiz De Sanctis

Ele tem chance de se candidatar a promoção, mas se diz indeciso

Fausto Macedo, O Estadao de S.Paulo

17 de novembro de 2008 | 00h00

Fustigado por uma penca de habeas corpus e mandados de segurança - 22 medidas que visam seu afastamento imediato e questionam sua imparcialidade -, Fausto Martin De Sanctis, o juiz da Satiagraha, enfrenta dilema profissional: acaba amanhã o prazo que ele tem para se inscrever no processo de promoção e conquistar uma vaga de desembargador do Tribunal Regional Federal da 3ª Região.A oportunidade é rara e poucos são os juízes que desprezam a ascensão - nem tanto pelo holerite, que incorpora reajuste de 5%, e mais pelo que oferece em prestígio, poder e distinção.Há 17 anos na carreira, e há 17 anos na 6ª Vara Criminal Federal, De Sanctis não está nem um pouco à vontade. A escolha é difícil e o atormenta. Mal consegue pregar os olhos à noite, confessa a amigos. A dúvida do magistrado pauta as rodas de conversa no tribunal.Se ficar, dirão que tem obsessão por Daniel Dantas, o banqueiro que é objetivo maior da Operação Satiagraha. Se for, abrirá mão de uma rotina que o deixa realizado.O TRF 3 é o maior dos cinco tribunais regionais, com jurisdição em São Paulo e Mato Grosso do Sul. Aloja 43 desembargadores. No momento, duas vagas estão livres, uma por aposentadoria, outra por morte. Uma cadeira pelo critério da antiguidade pode ser do juiz.Faz um mês que esse drama o persegue. O edital de promoção foi publicado pelo TRF dia 17 de outubro. O prazo para as inscrições esgota-se nesta terça. Em meio à estupenda papelada - 500 processos e 900 inquéritos federais de sua alçada -, o magistrado ora se convence da importância da promoção, ora fica dividido e recua. Quando se imagina no caminho certo, outras idéias e preocupações mexem com sua cabeça - no colegiado será apenas mais um e o seu voto poderá não ser decisivo, como hoje o é, ainda que no primeiro grau, na vara especializada em ações sobre crimes financeiros.Ele não quer desprestigiar a corte. Dá toda a atenção a colegas mais antigos que lhe recomendam seguir o curso natural da toga. Mas também ouve apelos, e são muitos, sobretudo de uma gente humilde que é de fora do seu mundo, senhorinhas e religiosas que pedem ao doutor que fique. Essas mulheres, idosas e muito laboriosas, tocam entidades assistenciais destinatárias de recursos que o juiz arresta do colarinho branco. Diante de veredicto que independe do Código Penal, seu arrimo do dia-a-dia, De Sanctis recorre aos céus: "Eu peço a Deus o tempo todo".

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