Dilema de viver a paixão estudantil ou militar em ONG

Ativismo no País tem várias facetas

Moacir Assunção, SÃO PAULO, O Estadao de S.Paulo

21 de março de 2009 | 00h00

Universitária com jeito de classe média e ar de intelectual, a estudante de fonoaudiologia da Universidade de São Paulo (USP) Débora Manzano Nogueira, de 22 anos, é firme em suas posições. Militante do movimento estudantil e diretora do Diretório Central dos Estudantes (DCE) da instituição, ela participou da ocupação da reitoria da USP há dois anos e integra, desde o ano passado, o PSTU. Não abre mão de sua militância, mesmo diante do quadro de descrença nos partidos hoje no País."O que faz com que a política partidária tenha essa péssima imagem é a associação natural que as pessoas fazem dos partidos clássicos com a corrupção e os altos salários dos políticos. No PSTU, nossa meta, como o próprio nome diz, é unificar as lutas dos trabalhadores, estudantes e outros setores, o que é bem diferente." A militância, no seu caso, foi uma consequência da política estudantil.Já o geógrafo Vinícius Madazio, de 35 anos, militante da ONG SOS Mata Atlântica desde 1998, jamais se filiou a um partido. Uma única vez, em 1992, fez campanha à prefeitura paulistana para o tucano Fábio Feldman, ligado à causa ambiental, mas acha que a sua militância ultrapassa os partidos e Estados. Para ele, a filiação partidária envolve questões como a "dificuldade muito grande de separar o público do privado" e a proliferação de partidos.O assunto é polêmico. Fábio Bandeira Maciel, estudante de Enfermagem da Universidade Federal do Ceará (UFC) e também militante do PSTU, considera que a militância ambiental pode ter um viés individualista, em detrimento das demandas coletivas. "É importante lutar pela causa do ambiente, mas esta luta não pode ser desconectada das demais", defendeu.Madazio contesta: "Hoje, a maior luta política, por curioso que possa parecer, trava-se dentro de um supermercado. Se você escolher uma marca compromissada com o meio ambiente e o respeito às minorias, deixará de apoiar uma outra que pode até usar trabalho escravo na confecção dos seus produtos." Na ONG, ele trabalha com a proposta de consumo consciente.O ambientalista, que já acompanhou sessões da Câmara e da Assembleia que tratavam da questão ambiental, afirma que se desencantou com os políticos. "Já ouvi debates em que, dos 15 que estavam falando, 2, no máximo, sabiam do que se tratava a discussão. Os demais estavam fazendo conchavos."Débora e Maciel atribuem ao PT e às suas mudanças de rumo após chegar ao poder parte das frustrações dos brasileiros com os partidos. Para eles, havia a ideia de que o PT no poder não agiria como os partidos tradicionais, mas não foi o que ocorreu. A estudante não teme que aconteça o mesmo ao seu partido. "Lá, todo mundo discute todos os assuntos o tempo inteiro. Não dá para se formar um grupo que se torne hegemônico."

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