Diferença entre Serra e Dilma só diminui com 'fato novo', dizem especialistas

Última pesquisa do Datafolha aponta petista com 49% das intenções de voto contra 29% de tucano.

Fabrícia Peixoto *, BBC

27 de agosto de 2010 | 04h57

Apenas um "fato novo" e de "peso significativo" é capaz de conter a diferença que separa os candidatos Dilma Rousseff (PT) e José Serra (PSDB) nas pesquisas de intenção de voto, avaliam especialistas em marketing político ouvidos pela BBC Brasil.

Levantamentos dos três principais institutos de pesquisa, divulgados nas últimas duas semanas, indicaram uma ampliação progressiva da vantagem de Dilma sobre Serra.

Pela média, a diferença entre os dois subiu de 5 para 18 pontos percentuais no prazo de um mês.

Na avaliação do publicitário e consultor político Carlos Manhanelli, os rumos da eleição "ainda podem mudar", mas segundo ele, a essa altura da campanha, apenas um fato "excepcional" seria capaz de "reconfigurar" as intenções de voto.

"Se analisarmos historicamente, veremos que temos, sim, exemplos de eleições que foram redefinidas nos últimos momentos", diz.

"Mas em todos os casos, o motivo dessa reviravolta foi sempre um fato novo e excepcional", acrescenta Manhanelli, autor do livro Marketing Eleitoral.

O consultor lembra o caso do então candidato Fernando Collor, que às vésperas da eleição presidencial de 1989 conseguiu estancar o crescimento de Luiz Inácio Lula da Silva ao trazer à tona um caso pessoal envolvendo uma filha do petista, fora do casamento.

'Pouco provável'

Membro do Conselho Orientador de Pesquisas Públicas da Unicamp, o consultor Ney Figueiredo também sugere cautela na antecipação de resultados, mas acrescenta que "uma mudança agora é pouco provável".

Ele também acredita que somente um fato novo poderá mudar o cenário atual, mas, esse fato, se vier, "será do lado petista".

"Não vejo mais como esse fato surgir do lado tucano. Eles já fizeram tudo o que tinha de ser feito."

"Já do lado petista, não podemos subestimar a chance de um equívoco que prejudique a candidata Dilma Rousseff", acrescenta.

Para ele, a candidata está baseando sua campanha em fatos "fortes", ligados às realizações do governo Lula no campo socioeconômico. "No entanto, dizer que a campanha está ganha é desprezar a possibilidade de um escorregão, o que acontece", diz.

Mudanças

A rápida consolidação da candidata petista na liderança acirrou o debate, entre tucanos, sobre uma possível mudança no curso da campanha, a pouco menos de 40 dias da eleição presidencial.

Após uma série de reuniões nos últimos dias, a equipe de José Serra decidiu melhorar a infraestrutura da campanha nos Estados, além de triplicar a distribuição de material para essas regiões.

Outra medida será a maior participação de lideranças regionais, como governadores e prefeitos, no programa de Serra na TV e no rádio. Nessa quinta-feira, o ex-governador de Minas Gerais, Aécio Neves, apareceu pela primeira vez no programa pedindo votos para o candidato tucano.

Na avaliação de Manhanelli, medidas como essas são apenas "pontuais" e insuficientes para mudar o curso de uma campanha na fase atual.

"Essas mudanças ajudam a estancar a perda de votos, mas não vão reverter o quadro, que está totalmente favorável a Dilma Rousseff, segundo as pesquisas", diz o consultor.

'Equivocada'

Na semana passada, diversos aliados de José Serra criticaram publicamente algumas estratégias da campanha tucana, entre elas a decisão de "esconder" o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e de tentar "colar" a imagem de Serra à de Lula.

O ex-deputado federal Roberto Jefferson (PTB), que integra a base de apoio a Serra, usou seu microblog para criticar o coordenador de marketing da campanha tucana, Luiz Gonzalez, por seu "olhar enfarado e apressado" sobre os políticos e por ter usado o apelido de "Zé Serra" na propaganda gratuita.

Figueiredo discorda das críticas. Para o consultor político, a equipe de Gonzales já realizou trabalhos "difíceis", como a eleição de Gilberto Kassab, em São Paulo, mostrando que é "muito competente".

O problema, segundo ele, não está na estratégia da campanha, mas sim no "momento econômico" do país.

"Desde o início essa era uma eleição difícil para a oposição. Ele teria que provar à sociedade que seria capaz de levar adiante os feitos do Lula", diz.

"Esse era o pulo do gato nessa eleição e pelo visto está se mostrando realmente muito difícil de ser colocado em prática", completa Figueiredo.BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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