Dias recebeu o diploma do ITA, 41 anos depois

Ele foi expulso 3 meses antes de se formar

O Estadao de S.Paulo

24 de novembro de 2007 | 00h00

Por causa da ditadura, o engenheiro Ezequiel Pinto Dias, de 61 anos, teve uma história escolar bastante incomum. Ele e o colega Luiz Esmanhoto pegaram o diploma do curso superior com 41 anos de atraso. Dias chegou a concluir duas pós-graduações, uma das quais na França, em Engenharia Matemática, sem ter o diploma da graduação.No dia da formatura, há dois anos, Esmanhoto brincou, dizendo que não sabia se deviam se cadastrar no programa de ajuda a jovens estudantes ou no auxílio à terceira idade.Ambos eram alunos da turma de 1964 do Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA) e foram expulsos três meses antes de se formar. A razão é que, como representantes do grêmio dos alunos, foram contra algumas decisões da diretoria. Dez anos depois, outro grupo de alunos rebeldes foi excluído do curso.A iniciativa de promover a reconciliação dos ex-alunos com o ITA foi do ex-reitor Michal Gartenkraut, que era estudante da instituição nos idos de 1964 e acompanhou de perto o drama dos colegas. Foi o primeiro caso em que uma entidade pública resolveu promover, via Comissão de Anistia, a pacificação de ex-alunos e Gartenkraut chegou a ser homenageado. Mas acabou demitido antes de completar sua gestão como reitor, por causa das resistências internas à reintegração dos ex-colegas."Era para o próprio ITA nos anistiar, mas, por pressão da Aeronáutica, o caso foi enviado à comissão, para jogá-lo para as calendas. O tiro acabou saindo pela culatra, já que o processo correu rápido em Brasília", conta Dias. Os ex-alunos não receberam nenhuma reparação econômica, somente o reconhecimento."Aquela foi uma época terrível, que marcou muito a nossa geração. A expulsão foi violenta e vários dos nossos colegas chegaram a ser presos por subversão no Departamento de Ordem Política e Social (Dops)", relembra Dias.Na época, ao falar com um oficial da Aeronáutica, ele reclamou que somente os dois foram expulsos do ITA, enquanto outros alunos também se colocaram contrários às decisões da diretoria. O militar respondeu que ele estava certo e todos os 200 alunos deveriam ter sido excluídos, mas o então reitor considerou que bastava expulsar alguns. Na seqüência, Dias perdeu, também, um emprego na Petrobrás.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.