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Dias piores virão

O ambiente está ruim para o governo. Do clima adverso dão notícias, entre outros acontecimentos, o recolhimento da presidente da República e a correção de rumo na economia mediante a socialização do prejuízo com os cidadãos convocados a pagar a conta das decisões equivocadas de Dilma Rousseff.

Dora Kramer, O Estado de S.Paulo

22 de janeiro de 2015 | 03h13

Pois o que está ruim vai piorar quando o Congresso voltar do recesso, no início de fevereiro. O embate pela presidência da Câmara é o primeiro, mas o menor dos problemas. Se Eduardo Cunha, do PMDB, ganhar como previsto, melhor para o Planalto. Não será submisso, mas é homem de compor nos limites do regimento e da chamada governabilidade.

Se perder para Arlindo Chinaglia (PT), será um líder do PMDB na Câmara disposto a destilar mágoa oceânica, pois terá sido derrotado por interferência do Planalto. No Senado, não obstante pareça assegurada a reeleição de Renan Calheiros, a oposição insiste em apresentar um candidato do PMDB para concorrer com ele e vem conseguindo atrair dissidentes do partido. Alguns até outro dia governistas "de ponta".

Essa cisão provavelmente não seja suficiente para produzir uma vitória oposicionista, mas é indicativa da fragilização do governo no Parlamento. Situação que tende a se deteriorar em decorrência das medidas que o governo está sendo obrigado a tomar. Algumas dependem do Congresso, como a medida provisória que reduz o valor dos benefícios do seguro desemprego, pensão por morte, entre outros.

As mais recentes relativas a aumento de impostos, ainda que não precisem passar pelo exame dos parlamentares, passarão pelo crivo da opinião pública. Quando chegarem ao bolso do cidadão, a repercussão negativa terá necessariamente reflexos no Congresso. Além de uma oposição fortalecida o governo encontrará uma base aliada muito pouco estimulada a defendê-lo.

A começar pelo PT, onde vigoram discordâncias em relação à linha da equipe comandada por Joaquim Levy. Ao lado disso há a turma da fisiologia. Esta não se ilude com o canto da sereia de promessas, pois a realidade dos cortes no Orçamento da União avisa a esses navegantes que podem dar adeus à liberação do dinheiro das emendas parlamentares ou a reforços de verbas nos ministérios ocupados pelos respectivos partidos.

De modo bastante realista: o que o governo tem hoje a oferecer a seus aliados é o desgaste de recorrer ao contorcionismo retórico para explicar à maioria que acreditou nas palavras da candidata Dilma, que o primeiro ato da "mudança" prometida seria o furto da boa fé das pessoas.

É de se conferir quantos estarão dispostos ao sacrifício numa base de sustentação cujos alicerces têm pés de barro. Estão escorados no pressuposto do êxito, da popularidade do governo, da carona no sucesso. Esse pessoal não tem compromisso com a dificuldade.

Fala-se na impossibilidade de a oposição se manifestar, vez que adotaria a mesma cartilha caso Aécio Neves fosse eleito. Há uma diferença crucial que se localiza entre a verdade e a mentira. O candidato do PSDB não escondeu sua plataforma, mas a candidata à reeleição pelo PT disse ao eleitorado uma coisa e fez o oposto. Daí se legitima a crítica.

Dilma Rousseff vetou o reajuste de 6,5% na tabela do Imposto de Renda da Pessoa Física e decidiu que a correção será de 4,5%. O índice havia sido aprovado pelo Congresso, que não mereceu do Executivo um gesto prévio sobre a decisão. Não custava ao Planalto reconhecer que o Legislativo tem uma função e pode ser convencido a voltar atrás mediante argumentação.

Na marra o governo enfrentará resistência, a oposição terá adesão de governistas para tentar derrubar o veto e pode até ganhar a parada no final. Mas, antes de vencer - se vencer - vai perder mais um pouco do capital político que se esvai na cadência de uma trajetória errática.

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