Diálogo sugere acordo entre ministro e Planalto

Informado por Cármen Lúcia de que Eros Grau rejeitaria denúncia, Lewandowski fala em 'troca'

Eugênia Lopes e Leonencio Nossa, BRASÍLIA, O Estadao de S.Paulo

07 de agosto de 2024 | 00h00

A revelação de diálogo entre os ministros Cármen Lúcia e Ricardo Lewandowski, durante o julgamento do mensalão, expôs divergências travadas até então nos bastidores pelos integrantes do Supremo Tribunal Federal (STF). Na conversa, mantida pela intranet do STF e registrada pelo jornal O Globo, Cármen informa a Lewandowski que o ministro Eros Grau lhe havia dito que rejeitaria integralmente a denúncia do mensalão. Em sua resposta à colega, Lewandowski sugere que isso indicaria "uma troca" com o governo para nomeação do sucessor de Sepúlveda Pertence na corte (leia trechos do diálogo na página A8). Posto numa saia-justa, Eros Grau, reagiu ontem exaltado. "Nunca vi esse procedimento nem esse tipo de diálogo no tribunal", protestou.Ao chegar para a sessão, o ministro afirmou ainda que nunca tinha visto na história do Supremo a interceptação de mensagens eletrônicas pela imprensa. Ele mandou que os jornalistas procurassem os dois ministros que travaram o diálogo para explicar a suspeita de que iria rejeitar o pedido do Ministério Público Federal de abertura de processo penal contra os acusados do esquema do mensalão. "Os ministros Cármen Lúcia e Ricardo Lewandowski sabem dessas coisas", afirmou.O episódio levou o site do STF a divulgar a informação de que não seria mais permitida a entrada de fotógrafos na sessão. Mais tarde, em nota oficial, a Secretaria de Comunicação Social do Supremo classificou o informe de "um equívoco" e explicou que a presidente da corte, Ellen Gracie, determinara que não houvesse nenhuma restrição ao trabalho da imprensa.BEM NA FOTOJá o ministro Marco Aurélio Mello, que foi criticado na troca de mensagens eletrônicas de Cármen e Lewandowski, não escondeu a satisfação com os deslizes dos colegas. "Quanto às referências à minha pessoa, penso que saí bem na fotografia", afirmou, rindo. "Cada um dos envolvidos tem de sopesar o contexto. Como juiz, não costumo discutir os meus votos, mas é um problema de foro intimo. Assim procedo há 28 anos."Em meio à polêmica, Marco Aurélio aproveitou para fazer auto-elogios. "Qual receio da minha presidência? Cumprimento do dever? Sim", disse. "Busco o cumprimento do dever, como tenho demonstrado durante a minha vida profissional. Um homem público é um livro aberto."Em suas mensagens por computador, Carmen Lúcia e Lewandowski também trocaram impressões a respeito do processo do mensalão. O ministro se disse impressionado com as argumentações do procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza, autor da acusação contra os 40 envolvidos no escândalo.

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