Diálogo revela esquema da propina em Jandira

Em conversa gravada pelo vereador Zezinho do PT, Mineiro, do PDT, conta como vendeu seu voto por R$ 200 mil para aprovar contas de Paschoalin

Fausto Macedo, de O Estado de S.Paulo,

14 Dezembro 2010 | 23h01

SÃO PAULO - Diálogo entre dois vereadores de Jandira, gravado em CD, tornou-se a peça principal da investigação sobre suposto esquema de corrupção e mensalinho na gestão do prefeito Braz Paschoalin (PSDB), executado a tiros de grosso calibre por um grupo de pistoleiros às 7h55 da manhã de sexta-feira.

 

A conversa foi gravada em 1.º de julho de 2008 pelo vereador Reginaldo Camilo dos Santos, o Zezinho do PT. Seu interlocutor, Waldemiro Moreira de Oliveira, o Mineiro, do PDT, revela passo a passo como vendeu seu voto por R$ 200 mil para dar apoio a Paschoalin em sessão realizada na Câmara de Jandira para aprovação das contas do tucano. "Ele me arrumou um saco de dinheiro, desses de lixo, assim. Bem pesado,Não é fácil não. Um saco, na crise que tá hoje?"

 

Cópia do CD foi entregue por Zezinho ao Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), braço do Ministério Público de São Paulo que investiga corrupção.

 

Bancário de profissão, filho de costureira e pedreiro, Zezinho ficou conhecido na cidade como o fiscal da gestão Paschoalin, contra a qual fez cerca de 60 denúncias à promotoria e ao Tribunal de Contas do Estado sobre desvios e fraudes. "A administração pública não é para você ficar rico. Eu tive oportunidade, eu tenho oportunidade todo dia de ficar rico. Você escolhe. A gente vê que é tudo uma farsa."

 

A conversa rendeu 16 páginas, segundo relatório de inteligência 06/08 do Gaeco - o laudo amparou inquérito policial e ordem judicial para quebra do sigilo bancário de seis vereadores. Mineiro foi vereador de 2005 a 2008 pelo PDT. Em julho passado desconhecidos o mataram quando chegava em casa.

 

No diálogo interceptado, Mineiro diz que comprou caminhão e chácara e construiu uma casa - "um obrão, um jumentão" - com o dinheiro que Paschoalin lhe teria dado. Outros vereadores, disse, foram contemplados com propina, "uma corrida de dinheiro".

 

As contas de Paschoalin, relativas a seu segundo mandato (1996-2000), haviam sido reprovadas por auditoria do TCE. Na Câmara ele se compôs com parte dos vereadores, inclusive Mineiro, para derrubar o veto do TCE, em 2008 - medida que abriu caminho para sua eleição, naquele ano, e o terceiro mandato a partir de janeiro de 2009.

 

Depois, o pedetista se vangloria. "Eu aproveitei o meu mandato. Aproveita o seu mandato. Larga o povo pra lá, rapaz. Deixa de ser besta."

 

Ele descreve o que fez com o dinheiro. "Eu meti o pau, comprei terreno, fiz garagem pra caminhão. Com dinheiro na mão você faz tudo em poucos dias. Ganhei duzentos e pouco. Gastei só um bocado e saí com casa e com tudo arrumado. Casa, salão, caminhão, tudo pago. Tô de boa. Você precisa ver o salãozera, como é que tá. Igual a um brinco."

 

Zezinho do PT pergunta a Mineiro se o prefeito não é perigoso e poderia pedir o dinheiro de volta. "Perigoso? O meu tá na mão. Ele tá mexendo com menino ou com trouxa? Só se ele me matar. Ele me conhece. Não queira me dar o nó."

 

No dia 19 de novembro de 2009, Paschoalin depôs no inquérito da polícia e negou o mensalinho a vereadores de Jandira. Ele disse que "o Mineiro por vezes faz oposição e por vezes o apoia, dependendo da matéria". Afirmou desconhecer "totalmente os termos da conversa que Zezinho teria tido com Mineiro. Para o tucano, a gravação pode ter sido feita para prejudicá-lo nas eleições de 2008 - ele sucedeu a Paulinho Bururu, do PT.

 

Mineiro disse que Zezinho o atraiu para uma conversa sobre "composições políticas". Sobre a propina, declarou que ao perceber que estava sendo gravado resolveu "falar besteiras, valores absurdamente altos".

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