Diálogo como recusa à violência para lidar com as divergências; leia análise

Diálogo como recusa à violência para lidar com as divergências; leia análise

Problema começa quando as disputas com liberdade e pluralidade são sufocadas por uma mentalidade que demoniza ou deslegitima as diferenças

Rafael Poço*, O Estado de S.Paulo

01 de agosto de 2021 | 05h01

A pesquisa do Instituto Ipsos (que mostra a percepção da polarização política no Brasil como acima da média mundial) confirma uma tendência que vem se ampliando pelo menos desde 2013, momento da história recente a partir do qual diferenças político-partidárias passaram a se acentuar, provocando dissolução de grupos, interdição de debates (públicos e privados) e ruptura de amizades e relações.

As mudanças no ambiente democrático nos fazem esquecer que diferenças políticas são saudáveis, e conflitos são parte de uma democracia funcional. O problema começa quando as disputas com liberdade e pluralidade são sufocadas por uma mentalidade que demoniza ou deslegitima as diferenças, tirando o foco da solução de problemas concretos para transformar os adversários no próprio problema a ser combatido. 

Esse processo leva uma disputa democrática a se tornar uma polarização em que a violência contra oponentes passa a ser justificada e aceita como defesa à identidade pessoal e de grupo. Isso tudo, alimentado por desinformação, corrói a democracia, altera a percepção sobre a realidade e molda emoções negativas. O resultado é menos pluralidade, menos espaço para tratar diferenças e empobrecimento do debate público sem soluções negociadas.

Como sair dessa?

Primeiro, entender que despolarizar o País não é buscar o caminho do meio ou a neutralidade. Na democracia, a sabedoria está na capacidade de criar espaços seguros para os conflitos emergirem e permitirem, quando possível, uma solução negociada. O oposto de polarização, portanto, é encontro, é diálogo e negociação como recusa à violência para lidar com as divergências.

Ao lado de outras organizações brasileiras e internacionais, o projeto Despolarize vem desenvolvendo uma série de iniciativas destinadas a oferecer instrumentos para que consigamos superar o sectarismo e a violência político-eleitoral. Estamos especialmente preocupados sobre como essa violência política e simbólica afetará a eleição do ano que vem, pois pode alterar (e até inibir) o modo como as pessoas participam da democracia.

Há pelo menos três passos necessários: deslegitimar a violência (reprovando sua manifestação e assim moldando as normas sociais sobre as quais comportamentos são aceitos ou não); estabelecer pontes e promover o entendimento (manter relações com pessoas de posicionamentos políticos diferentes, conhecê-los e não demonizá-los são atos fundamentais para prevenir conflitos violentos); explorar o potencial da comunicação para melhorar o debate e provocar diálogos – inclusive em busca de convencimento e ampliação de apoio a nossas visões.

Esses caminhos se convertem numa enorme quantidade de percepções, exercícios e práticas. Começá-las implica uma ampla campanha de conscientização e sensibilização, de um lado, e suporte a práticas de diálogo e negociação, de outro. Um convite para que possamos voltar a nos comunicar e conversar – sem medo e sem ódio – sobre política.

*Rafael Poço é diretor-executivo do Instituto Galo da Manhã e idealizador do Despolarize. Advogado, foi assessor na Procuradoria-Geral de Justiça do Ministério Público de São Paulo. 

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