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Dezoito

A eleição será o epílogo do período em que tudo foi influenciado pelos ecos de Curitiba

Vera Magalhães, O Estado de S.Paulo

31 Dezembro 2017 | 05h00

Na verdade, a partir de amanhã, começa a se encerrar um ciclo da história brasileira. Os últimos quatro anos foram marcados de forma indelével pela Operação Lava Jato, deflagrada em março de 2014.

Assim como a eleição daquele ano se deu sob o signo da maior investigação de um esquema de corrupção já desvendado no País, a de 2018 será uma espécie de epílogo deste período em que tudo, da política à economia, foi influenciado pelos ecos de Curitiba.

Uma presidente caiu, a economia brasileira mergulhou em sua mais prolongada recessão, um presidente assumiu para permanecer sempre na corda bamba.

As antes intocáveis empreiteiras se viram na berlinda, com seus sócios e executivos atrás das grades, e foram forçadas a admitir publicamente esquemas criminosos que praticavam provavelmente desde sempre, mas que foram elevados ao estado da arte em conluio com o consórcio PT-PMDB.

A quadra que se encerra em 2018 é aquela ditada pelo lulopetismo, que, paradoxalmente, tentará na eleição o seu canto do cisne, se a Justiça assim permitir.

E qual a expectativa do brasileiro para este ano capital? Um levantamento realizado nos últimos dias do ano pelo instituto Ideia Big Data mostra uma clara linha divisória que separa as perspectivas em relação à política e à economia.

Enquanto 51% apostam que a situação econômica do Brasil será melhor no ano que se inicia amanhã, nada menos que 80% esperam um ano pior do ponto de vista da política. 

Tamanho pessimismo parece revelar um eleitor cético quanto à possibilidade de que as eleições tragam resultado positivo para encerrar as práticas desnudadas pela Lava Jato e, principalmente, que os acusados de corrupção e outros crimes sejam efetivamente punidos.

O ano que terá seu ponto final hoje foi marcado por impasses do ponto de vista institucional. Investigações contra políticos andaram em compassos bastante desiguais na primeira instância – onde houve condenações a granel de nomes como Lula, Eduardo Cunha e Sérgio Cabral e seus satélites – e nos tribunais superiores, onde ainda dormitam sem resposta acusações contra Aécio Neves, José Serra, Gleisi Hoffmann, Renan Calheiros, Romero Jucá e outros do primeiro time da política nacional.

O Congresso, depois de dar sinais de que avançaria com pautas relevantes da economia no início do ano, a partir de maio se viu convertido em corte de julgamento do presidente da República, com as consequências que isso teve em termos de fisiologismo explícito. Termina 2017 sem ter tido a coragem de encarar a reforma da Previdência, pendência adiada para o ano que começa amanhã.

O governo ressurrecto patina diante da impopularidade recorde de um presidente acidental, que tenta surfar na melhora dos indicadores econômicos enquanto não para de acertar o próprio pé na política.

Enquanto isso, na pré-campanha eleitoral, o que se vê são opções que vão da polarização entre Lula e o anti-lulismo (encarnado na figura de Jair Bolsonaro) e um centro ainda superpovoado, mas pouco identificado como capaz de ser uma solução pelo eleitor cético.

Diante deste cenário, não chega a surpreender o pessimismo com a política. Sua dissipação depende da capacidade de as instituições darem conta de várias feridas expostas pela Lava Jato e que estão ainda abertas. Que se julguem os investigados, que se fixem regras claras para quem pode ou não disputar as eleições, quem deve ou não cumprir pena de prisão e a partir de quando, com que regras exatamente se dará a mais importante campanha das últimas décadas.

Essas respostas são fundamentais para que de fato se encerre o ciclo aberto pela Lava Jato e o País possa iniciar uma nova quadra. 

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