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Devagar e sempre

Para efeito externo o discurso ainda é o de que a queda da presidente Dilma Rousseff nas pesquisas não assusta porque os adversários não cresceram.

Dora Kramer, O Estado de S.Paulo

08 Junho 2014 | 02h02

Internamente, os números divulgados pelo instituto Datafolha na sexta-feira bateram no PT como um prenúncio quase certo de derrota se alguma providência não for tomada. E por "providência" entenda-se a troca da candidatura do partido. Aquele sentimento temporariamente arrefecido reacendeu e deve jogar o PT de novo na discussão do "volta, Lula" nessas duas semanas que faltam para a convenção marcada para o próximo dia 21.

A inquietação nos telefonemas trocados entre petistas na sexta-feira de manhã era com a possibilidade de "entregar (o governo) para o Aécio". Hipótese, de acordo com essas avaliações, perigosamente desenhada em duas situações da pesquisa: na simulação de segundo turno e na indicação da pessoa com mais capacidade de promover as mudanças desejadas por 74% por consultados.

Em fevereiro, Dilma tinha o dobro das intenções de voto do tucano Aécio Neves em disputa na fase final: 54% contra 27%. Agora ela caiu para 46% e ele subiu para 38%. No quesito capacitação para promover mudanças o ex-presidente Lula aparece em primeiro lugar com 35%, Aécio em segundo com 21% e Dilma em terceiro com 16%.

Nas intenções de votos a presidente ainda está em primeiro lugar com 34%, mas perdeu 10 pontos porcentuais de fevereiro para cá. Vem caindo devagar e constantemente. O mesmo movimento ocorre com seu índice de rejeição: era de 30% em fevereiro e agora é de 35%. São números que vão se consolidando, firmes e, portanto, aparentemente difíceis de tomarem o rumo inverso.

O mesmo acontece com a avaliação de governo, que já foi de 65% no quesito ótimo e bom há pouco mais de um ano, caiu para 25% em junho de 2013, deu uma boa recuperada em fevereiro (41%) e nos últimos meses voltou a cair gradativamente até atingir os atuais 33%. Dizem os estudiosos de estatísticas eleitorais que governantes com avaliações positivas abaixo de 35% não conseguem se reeleger.

Permitam-me, o senhor e a senhora, lembrar um detalhe: a análise aqui é baseada na percepção recolhida entre petistas que sob a condição do anonimato puderam dar uma visão mais realista que a versão oficial. São eles os primeiros a apontar a irrelevância dos índices dos adversários nesse momento, considerando mais importante o grau de conhecimento e de exposição de cada um.

Muitos não duvidam de que Dilma estaria atrás do segundo colocado se ele fosse tão conhecido e tivesse tanto espaço nos meios de comunicação quanto ela.

Esses dados fazem baixar, não diria o pânico, mas o sentido de urgência nas hostes do PT. Note-se: não disse governistas, pois os demais partidos da "base" se arranjam em qualquer governo.

O "Volta Lula", por isso, é hoje uma preocupação exclusivamente petista. Na avaliação do partido difícil de resolver. Porque, com todo poder de mando do ex-presidente sobre o partido e sua criatura ele preservaria um sentido de delicadeza que o impediria de impor uma desistência a Dilma. Pela qual há uma evidente torcida.

Barco a vagar. Segundo o ex-presidente Lula, a culpa do ínfimo crescimento da economia é do pessimismo dos empresários. Mas, de acordo com o Banco Central, o pessimismo dos brasileiros em geral é muito bom porque vai ajudar a reduzir a inflação que, na avaliação do ministro da Fazenda, foi a responsável pelo mau desempenho da economia.

Inflação esta até outro dia mesmo um problema existente só na cabeça dos pessimistas que, se agora são tidos pelo BC como aliados na luta contra a inflação, antes eram apontados como soldados da "guerra psicológica" contra o governo.

Deve ser por essa confusão que a presidente Dilma, quando perguntada sobre o porquê de o Brasil crescer tão pouco, agora diz que não sabe a razão.

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