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Devagar com o andor

Se o Tribunal de Contas da União tivesse incluído o Conselho de Administração da Petrobrás entre os responsáveis pelos prejuízos (US$ 792 milhões) causados à empresa com a compra da refinaria de Pasadena, a oposição teria recebido a decisão como um presente.

Dora Kramer, O Estado de S.Paulo

25 de julho de 2014 | 02h02

Faria um tremendo carnaval caso Dilma Rousseff, presidente do conselho à época (2006) em que foi feito o negócio, integrasse a lista da qual acabaram fazendo parte apenas os 11 diretores executivos da estatal.

Levantaria esse estandarte a fim de pregar na testa da presidente candidata à reeleição a marca da suspeita no campo da malversação. Uma sombra que persegue o PT, mas uma pecha que Dilma Rousseff não tem; estaria criada aí a oportunidade aos adversários para abrir nova frente de ataque, ressuscitando o assunto já meio morto nas duas CPIs do Congresso.

Nesse sentido, o líder do PT no Senado, Humberto Costa, tem razão quando diz que a aprovação do relatório do TCU foi uma "ducha de água fria" para a oposição. Mas digamos que a correção de sua análise se encerra por aí. O tom de regozijo não se justifica.

O fato de os oposicionistas não terem um trunfo eleitoral à disposição não elimina o dado de realidade exposto pelo Tribunal de Contas no julgamento ainda não conclusivo, pois haverá uma nova e mais aprofundada fase de investigações até a decisão final.

E o que disse o TCU? Que o negócio considerado "bom" pela diretoria da Petrobrás provocou um prejuízo de US$ 792 milhões - bem superior aos US$ 530 milhões anteriormente admitidos pela atual presidente da estatal, Graça Foster -, e apontou várias irregularidades no processo.

Determinou em princípio o bloqueio dos bens dos diretores da empresa sob o governo de Luiz Inácio da Silva. Portanto, se do ponto de vista do País já não há nada a comemorar, sob o aspecto partidário menos ainda. Afinal de contas, a presidente Dilma pessoalmente está isenta, mas o mesmo já não se pode dizer do PT.

Compreende-se até certo ponto o alívio com que o Palácio do Planalto recebeu a notícia. Seria um prejuízo para a candidatura se houvesse responsabilização da presidente Dilma. Ocorre, porém, que essa questão não pode ser examinada exclusivamente sob o prisma eleitoral, considerando que o escandaloso é o negócio em si.

E a oposição, que tanto acusa o governo de ver as coisas apenas por essa ótica, cometeu o mesmo pecado ao acusar de maneira leviana o TCU de ter cedido a pressões políticas para isentar o Conselho de Administração e, consequentemente, a presidente da República.

Pelo visto, os oposicionistas esperavam que o relator, ministro José Jorge, assumisse papel de político ligado ao DEM, ministro no governo Fernando Henrique Cardoso e vice na chapa do tucano Geraldo Alckmin na eleição de 2006.

O relatório dele foi acatado por unanimidade. Explicou que nessa fase preferiu se concentrar nos operadores diretos do negócio. Razoável, nenhum absurdo. Não faz sentido é falar em acertos porque não há evidências, só suposições.

Tivesse sido diferente, a oposição estaria soltando foguetes e a situação acusando o TCU de usar o órgão para crucificar a presidente.

Em ambientes em que todos os santos são de barro o mais prudente é carregar o andor mais devagar.

Cacife. Aliados da presidente Dilma no Rio de Janeiro demonstram desagrado com os agrados dela ao candidato do PMDB ao governo do Estado, Luiz Fernando Pezão, com quem teria encontro de prefeitos ontem à noite. Reclamam falta de atenção, mas já estão todos seguros no palanque: Lindbergh Farias (PT), Marcelo Crivella (PRB) e Anthony Garotinho (PR).

Enquanto isso, o PMDB soube valorizar o passe: a seção regional bandeou-se para o tucano Aécio Neves, lançou o movimento "Aezão" e tem 1.500 candidatos a deputado, além de prefeitos e vereadores, trabalhando nas ruas.

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