Deutsche Bank confirma operação com empresa de Maluf

Documentos entregues pelo Deutsche Bank ao Ministério Público de São Paulo confirmam que a Eucatex S.A. Indústria e Comércio - principal empresa do ex-prefeito Paulo Maluf (PPB) -, recebeu entre julho de 1997 e julho de 1998 investimentos de três fundos do Deutsche Morgan Grenfell da Ilha de Jersey, no valor de US$ 89,3 milhões. Os papéis revelam que o dinheiro passou pela agência do banco em Nova York, antes de chegar ao Brasil, e foi usado na compra de debêntures que, em seguida, foram convertidas em ações ordinárias e preferenciais nominativas da companhia.A regularidade da operação com fundos de Jersey está sendo examinada pelos técnicos da Superintendência de Fiscalização e Registros da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Para os promotores de Justiça da Cidadania que investigam a suposta existência de contas em nome do ex-prefeito e familiares na Suíça e no paraíso fiscal do Canal da Mancha, a operação permitiu o repatriamento de valores nunca declarados à Receita.Desde o início do caso Jersey, Maluf nega enfaticamente ser beneficiário ou titular de aplicações no exterior. O promotor Silvio Antonio Marques, que investiga possíveis atos de improbidade que teriam sido praticados em sua administração na Prefeitura (1993-1996), considera "no mínimo ´uma coincidência´ o fato de três fundos de Jersey terem investido exatamente na companhia pertencente a Maluf e familiares".O escritório Leite, Tosto e Barros Associados - que conduz a defesa de Maluf - informou que a Eucatex é sociedade de capital aberto, com todos os seus atos devidamente registrados na CVM, inclusive investimentos. O advogado Ricardo Tosto avalia que a empresa "está tendo seu nome envolvido por falsas afirmações de ilegalidade nos investimentos recebidos, apoiadas unicamente em suposições, não em fatos, que não existem".SuspeitaA promotoria sustenta que "o dinheiro ficou depositado no Citibank NA de Jersey, mas depois pode ter sido transferido para o Deutsche Grenfell", da mesma ilha. "Existe a suspeita de que o dinheiro possa ter retornado ao Brasil através da compra de debêntures da Eucatex pelo Deutsche Bank de São Paulo, em conjunto com o Deutsche de Nova York."Segundo ação cautelar de seqüestro de bens de Maluf no exterior, em curso na 4.ª Vara da Fazenda, tais valores teriam sido desviados do Tesouro Municipal por meio de contratos superfaturados de obras viárias. Maluf não admite suspeitas sobre sua gestão e acusa promotores de "perseguição política", porque ocupa o primeiro lugar nas pesquisas de intenção de votos para o governo do Estado.Entre os papéis que estão de posse do Ministério Público há um fax do Deutsche Morgan Grenfell de Jersey, endereçado em 21 de agosto de 1997 a Flávia Bonilha, do Deutsche Bank em São Paulo. O documento aponta uma das transações com a Eucatex, concluída naquele dia, no montante equivalente a US$ 28,57 milhões. A correspondência é assinada por Virgínia Carter, do Deutsche Grenfell - instituição financeira do grupo Deutsche Bank AG.O texto confirma a operação do DBMOF Latinvest Fund, para compra de debêntures da Eucatex. "Dando prosseguimento à nossa conversa feita anteriormente, hoje, por telefone, eu confirmo que a seguinte operação deve ser agendada em nome de DBMOF Latinvest Fund", assinalou Virgínia. "Favor notar que essa operação foi efetuada em dois pagamentos." O primeiro, de US$ 28 milhões, em 20 de agosto. A diferença (US$ 579,19 mil) foi acertada em 21 de agosto.NotoriedadeO Ministério Público entregou cópias dos documentos ao juiz Claude Wenger, de Genebra, responsável pelo procedimento 1.1087/01 - instaurado para investigar a origem de depósitos de Maluf na Suíça, entre 1985 e 1997. "Os fundos são acionistas da Eucatex até hoje, embora a empresa tenha registrado sucessivos prejuízos desde 1997", apontam os promotores.Para Ricardo Tosto, "é de lamentar-se que, no afã de buscar notoriedade, alguns membros do Ministério Público veiculem notícias dando as suas simples suposições como a expressão da verdade". Ele advertiu que "na defesa do interesse de seus acionistas e investidores, a Eucatex vai buscar no Judiciário as reparações pelos prejuízos que tais fatos lhe causarem".

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