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'Destruição' de legado na política externa incomoda ex-presidente

Lula se queixa do fato de Brasil ter perdido espaço no cenário internacional após redução de prestígio do Itamaraty com Dilma

ELIANE CANTANHÊDE, O Estado de S.Paulo

13 Fevereiro 2015 | 02h03

Além de criticar duramente o desempenho da economia e a condução da política, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem focado sua irritação contra a sucessora e pupila Dilma Rousseff na política externa.

Cada vez mais desenvolto nas críticas, Lula reclama que Dilma está "destruindo" seu legado na política externa, área da qual tem especial orgulho. Ele julga que nos seus dois mandatos o Brasil virou uma estrela disputada e agora vem perdendo precioso espaço no cenário internacional e nos foros de grandes decisões setoriais ou multilaterais.

Na avaliação que Lula faz e os lulistas disseminam, essa perda de importância ocorre principalmente pelos resultados da economia no primeiro mandato de Dilma e porque a presidente descuidou da interlocução com os países ricos, não deu continuidade à aproximação com os emergentes, não tem paciência para reuniões multilaterais e desdenha da política de "soft power" iniciada na gestão do chanceler Celso Amorim na era Lula.

Lula se queixa particularmente do descaso de Dilma com uma das prioridades de sua política externa: a África. Em seu governo, ele promoveu a aproximação econômica, política e humanitária com o continente africano, levando grandes empresas nacionais a operarem em especial nos países de língua portuguesa e também por meio de programas de cooperação em saúde, educação, agricultura, combate à pobreza e desenvolvimento sustentável.

"Agora, quando chego num país africano e pergunto como vai o programa esse ou aquele, a resposta é sempre assim: ou acabou, ou o dinheiro não chegou", reclamou Lula a interlocutores, lembrando que, mesmo após deixar o Planalto, continua viajando com certa frequência à África e apadrinha obras e investimentos brasileiros no continente, principalmente na área de construção pesada e equipamentos.

'Dilminha'. Perplexo diante da perda de prestígio e de influência do Itamaraty - que está no terceiro chanceler desde 2011 -, Lula convidou para uma conversa o então ministro das Relações Exteriores, Luiz Alberto Figueiredo, e assessores petistas em São Paulo.

"O que está acontecendo? Por que o Brasil saiu do radar?", perguntou Lula ao ministro, sem meias-palavras. Com uma cautela que lhe é característica e que foi lapidada pela carreira diplomática, Figueiredo ainda tentou tergiversar. Lula insistia, Figueiredo desconversava. Até que o ex-presidente foi ao ponto: "É a Dilma, não é?".

O chanceler concordou, mas medindo cada palavra: "A presidenta não dá muita prioridade à política externa, à diplomacia..." Lula tentou ensinar, então, que, "com a Dilminha é assim: você fala a primeira vez, fala a segunda vez, fala a terceira vez, até ela te ouvir e decidir fazer".

Figueiredo não teve tempo para testar a fórmula Lula de tratar com a sucessora e ex-chefe da Casa Civil. Pego de surpresa, o chanceler foi demitido por Dilma menos de 30 horas antes da posse do segundo mandato, quando tinha tudo pronto para recepcionar autoridades estrangeiras, incluindo o vice-presidente norte-americano, Joe Biden, e para tirar a foto com o novo ministério.

Calote. Com uma intensa pauta internacional, inclusive a urgente recomposição das relações com os Estados Unidos, o novo chanceler, Mauro Vieira, está sendo obrigado a consumir um tempo precioso para resolver um grave problema numa seara bem menos nobre: a falta de dinheiro nas representações brasileiras mundo afora.

Até jovens diplomatas consideram que esse é mais um resultado direto do descaso de Dilma com o Itamaraty, que se reflete em questões comezinhas como o pagamento das contas de embaixadas e consulados. Funcionários vêm sendo compelidos a tirar dinheiro do próprio bolso para pagar despesas como telefone, luz e água.

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