Dida Sampaio/Estadão
Plano Piloto mascara realidade das cidades satélites; DF tem problemas semelhantes ao de outros grandes centros urbanos brasileiros. Dida Sampaio/Estadão

Ótimo plano, péssimo planejamento: os desafios de Brasília após 57 anos

Construída na década de 1950, fundadores não previram o grande crescimento da população e cidade hoje enfrenta problemas semelhantes a de outras capitais do País

Ludimila Honorato e Paulo Beraldo, O Estado de S.Paulo

06 de maio de 2017 | 05h00

O estudante Antônio Crivelaro, 21 anos, chegava a perder 3 horas do dia em longos trajetos de ônibus entre Ceilândia, onde mora, até a Universidade de Brasília (UnB). A distância foi uma das razões que fizeram o jovem abandonar o curso. “Quem consegue se formar morando longe é guerreiro”, brinca.

Atualmente, ele estuda no Centro Universitário de Brasília, em Taguatinga, e seu tempo no transporte caiu pela metade. Ele aproveita para ouvir um áudio livro ou ler em pé, mas nem sempre foi assim. “Só consegui chegar a isso depois de passar muita raiva e estabelecer algumas prioridades”, explica. A distância é um desafio diário.

Crivelaro é apenas um dos muitos brasilienses que acabam se desgastando por depender do transporte público da capital federal. A estudante Letícia Marques, 21 anos, mora no Guará e estuda na Universidade de Brasília (UnB), no Plano Piloto. Para chegar à aula às 8h da manhã de ônibus, tem de sair de casa às 6h30. De carro, o percurso leva 30 minutos.

Até nas horas de lazer, é difícil se locomover pela cidade. “Andar a pé ou de bicicleta aqui é difícil. Parece que a cidade não foi projetada para atender as pessoas menos favorecidas”, diz a jovem que se mudou de Minas Gerais para Brasília em 2014.

Segundo o professor de finanças públicas da UnB, Roberto Piscitelli, a configuração da cidade dificulta a existência de um sistema de transporte integrado, eficiente e econômico. “Há certas ilhas e áreas de concentração. O deslocamento não é padrão e contínuo como em São Paulo”, compara.

A administradora Reiko Nakayoshi, 43 anos, nasceu em Brasília e diz que o Plano Piloto não mudou muito com o tempo, principalmente pelo fato de a cidade ser tombada. Mas o trânsito e o crescimento desordenado são evidentes para ela. “No entorno, o crescimento foi gigantesco. Acho que se Juscelino (Kubitschek) visse como ficou o Distrito Federal, não acreditaria”, diz.

Ela cresceu na Asa Sul, mas atualmente mora com os três filhos no Gama, a cerca de 32 quilômetros do Plano. Depois da mudança, ela diz que sua qualidade de vida melhorou bastante. Reiko gastava muito tempo no carro e raramente encontrava lugar para estacionar. A disputa por vaga era entre os cerca de 1,5 milhões de automóveis espalhados por Brasília.

Como forma de melhorar a mobilidade urbana, o governo da cidade informou em nota que está construindo e reformando terminais rodoviários - 16 já foram entregues de um total de 18. Obras como construção de viadutos e aumento da malha cicloviária estão previstas.

Plano sem planejamento. O professor emérito da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UnB, José Carlos Coutinho, considera que a maior parte dos problemas de Brasília está relacionada à falta de planejamento. "A cidade é um ótimo exemplo de plano, mas um péssimo exemplo de planejamento", afirma. Aos 82 anos, Coutinho mora em Brasília há 49 e é cidadão honorário da cidade.

Ele explica que não houve uma visão para o crescimento futuro de Brasília e da população, o que resultou no afastamento dos menos favorecidos. Segundo Coutinho, a cidade tem níveis de vida próximos aos da Europa no Plano Piloto e condições extremamente desfavoráveis a poucos quilômetros dali.

Um exemplo é a comunidade Sol Nascente, uma das maiores da América Latina, com 95 mil habitantes. Ali, as condições de higiene são precárias, o asfalto, quase inexistente, e a maior parte das casas está em terrenos irregulares. "O planejamento deveria ter acompanhado o crescimento da cidade e ter tentado se antecipar aos problemas que surgiriam", afirma o urbanista.

Segundo o governo, áreas carentes como a da Sol Nascente estão recebendo redes de esgoto, de águas pluviais e pavimentação. A administração afirma também que está combatendo a grilagem e legalizando lotes - entregou 25 mil escrituras na gestão atual.

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Brasília: números vs realidade

Enquanto em áreas nobres do Plano Piloto a renda mensal supera R$5.400, moradores de cidades do entorno chegam a viver com um salário mínimo

Ludimila Honorato e Paulo Beraldo, O Estado de S.Paulo

06 de maio de 2017 | 05h00

Pensada para ser o centro político do País, Brasília concentra no Plano Piloto a maioria das oportunidades de emprego e de prestação de serviços. Mas ali vivem apenas 15% dos quase 3 milhões de habitantes da cidade.

Essa convergência reflete nas condições financeiras de quem mora no Plano - e de quem está longe dele. Em regiões nobres como o Lago Sul, por exemplo, a renda por habitante supera os R$ 5.400, enquanto em Ceilândia, a 30 quilômetros dali, cada pessoa recebe um salário mínimo, ou seja, menos de R$ 1 mil.

O fato de os brasilienses possuírem a maior renda do Brasil pesa no bolso da população. Foi o que chamou a atenção da estudante Letícia Marques. “Quando volto para minha cidade, não acredito no preço das coisas. É tudo muito, muito mais barato que em Brasília”, diz.

Segundo Roberto Piscitelli, professor de finanças públicas da UnB, o “inchaço do PIB” no Distrito Federal, junto aos bons índices, é resultado da presença de organizações de caráter nacional, internacional e sedes administrativas de empresas que oferecem salários acima da média.

A estudante Letícia, que é do interior de Minas, se surpreendeu com a desigualdade. “As pessoas que têm renda alta são poucas. Quem é de fora não tem essa imagem, porque tudo é muito focado no Plano Piloto, e até mesmo as pessoas daqui não enxergam as cidades satélites”, diz.

Qualidade de vida. No ranking mundial da qualidade de vida, produzido pela consultoria internacional Mercer e divulgado em março deste ano, Brasília ficou na 109ª posição. É a cidade melhor avaliada do País - à frente de Rio de Janeiro (118ª) e de São Paulo (121ª) - e uma das cinco mais bem avaliadas da América Latina. O levantamento considerou características como educação, saúde, serviços públicos, qualidade de vida e lazer.

Todos os bons indicadores, porém, escondem uma desigualdade de grandeza semelhante. No índice de Gini, que mede o grau de concentração de renda de um grupo, quanto mais próximo de 1, mais desigual é a sociedade. Em 2015, o Distrito Federal tinha uma avaliação de 0,555, acima da média nacional (de 0,491), segundo dados da Pnad. O índice de São Paulo, por exemplo, era de 0,460 e o do Rio de Janeiro, 0,503.

Essas diferenças sociais e econômicas implicam em questões como educação e formação profissional. Nas cidades ao redor da capital, a maioria da população tem apenas o ensino fundamental completo ou incompleto, aponta Eduardo Borges, professor de economia do Ibmec/DF. Nas regiões mais nobres, o nível de escolaridade chega à graduação e pós-graduação.

Para o especialista, a solução seria descentralizar e fazer melhorias nas cidades ao redor do Plano Piloto. “Com investimento na formação técnica e acadêmica, haveria acesso a melhores empregos e desenvolvimento nessas regiões”, diz.

Em nota, o governo de Brasília afirma que tem trabalhado para reduzir as disparidades de infraestrutura urbana a fim de aumentar o acesso às oportunidades de emprego e aos serviços públicos da população das regiões administrativas mais distantes.

Segundo Borges, outra opção seria diversificar a atividade econômica de Brasília, hoje centralizada no setor de serviços (43,2% do PIB), e promover incentivos fiscais a indústrias de tecnologia. “Isso gera alto valor agregado e pode ser uma alternativa para melhorar a participação desse setor na produção nacional. Além disso, melhoraria os salários, pois necessitaria de mão de obra qualificada”, afirma.

A administração de Brasília diz que tem investido em pesquisa aplicada e inovação. No último dia 12 de abril, foi publicado o Decreto nº 38.126 que instituiu a Política Distrital de Ciência, Tecnologia e Inovação - Inova Brasília, que visa apoiar iniciativas de pesquisadores, inventores e startups.

Problema histórico. As contradições urbanas do Distrito Federal vêm do passado. “A cidade foi pensada para 500 mil habitantes. Seu crescimento está relacionado ao poder de atração que a capital exerce sobre outros estados e municípios que, ainda hoje, buscam aqui novas oportunidades”, informou em nota o governo de Brasília.

Segundo o professor Roberto Piscitelli, os pioneiros da capital federal foram atraídos pela ideia de um Eldorado que cresceria, se desenvolveria e ofereceria bons empregos. Era a terra das oportunidades. “Muitos se beneficiaram com isso, especialmente os que tinham atividades profissionais e exploravam negócios próprios. Mas outros ficaram nas regiões periféricas”, conta.

Ele mesmo foi atraído por essa idealização. Nascido em Porto Alegre e vivendo em Brasília há 42 anos, Piscitelli foi buscar um pouco do Eldorado que existia ali, nas palavras dele. “Era um lugar tranquilo com a ideia de uma cidade promissora.” 

José Carlos Coutinho diz que, logo no início do povoamento, surgiram os núcleos urbanos que formariam a constelação de 31 cidades satélites no entorno da capital federal. “A atração inevitável que Brasília exerceu poderia ter gerado um planejamento metropolitano. Há dezenas de núcleos urbanos com população elevada e poucas oportunidades”, afirma.

Futuro. Brasília vai continuar crescendo, alerta Coutinho. “Será preciso formar uma administração regional metropolitana para gerir essa cidade complexa que está se formando em torno do Plano”, diz. Roberto Piscitelli acredita que, para melhorar, Brasília precisa investir em ações mais integradas de segurança, transporte e saúde que incluam o entorno.

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'Brasília não tem nada a ver com o que o Brasil enxerga da capital', diz secretário de cultura

Longe das decisões do Congresso, o brasiliense desfruta de uma cultura rica e se orgulha da capital federal

Ludimila Honorato e Paulo Beraldo, O Estado de S.Paulo

06 de maio de 2017 | 05h00

Brasília vai além do propósito de ser a administração política do Brasil, desde que houve a transferência do Congresso e demais órgãos do Rio de Janeiro para lá. "Temos várias gerações de brasilienses que vivem, crescem, trabalham e criam os filhos aqui. A cidade não tem nada a ver com o que o Brasil enxerga da capital", diz Guilherme Reis, secretário de cultura do Distrito Federal e habitante da capital desde 1960, ano em que foi inaugurada.

Para ele, Brasília e seu entorno deveriam ser mais conhecidos, principalmente pela arquitetura, gastronomia e riquezas culturais, o que é motivo de orgulho para quem nasceu lá, segundo ele. Reiko Nakayoshi, 43 anos, é uma dessas brasilienses que ama a cidade onde construiu a vida. Descendente de japoneses, que saíram do país oriental para fugir da guerra, os pais dela só se conheceram no Distrito Federal.

“Brasília era a capital da esperança. Quando as primeiras pessoas vieram, disseram ao presidente que aqui não dava para plantar. Então, ele trouxe algumas famílias japonesas, e meus pais vieram com a esperança de uma vida melhor”, conta Reiko. Na capital federal, a família dela trabalhou com agricultura e comércio.

Atualmente, ela mora com os três filhos pequenos no Gama, uma cidade satélite a 32 quilômetros de Brasília. Ela diz que o transporte poderia ser melhor, que os preços de imóveis e escolas são altos no Plano Piloto, onde trabalha, mas se apega mais às belezas da cidade. “Adoro Brasília, é uma cidade bonita, com muito verde e diversidade cultural. Quando viajo, sinto falta do céu de Brasília, que é lindo", conta.

Para o aniversário de 57 anos de Brasília, comemorado em abril, as comemorações buscaram fortalecer as origens regionais. "Focamos na nossa identidade, nos sotaques, nos sons e nos ritmos que estão aqui nesse quadradinho no centro do país", diz Reis, sem esconder o carinho.

Patrimônio. Há quase 30 anos, Brasília foi reconhecida como patrimônio cultural da humanidade pela UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura). O urbanista e professor emérito da UnB, José Carlos Coutinho, não mede palavras para descrever o “patrimônio inestimável” que a cidade representa para a arquitetura mundial. A natureza e a paisagem marcantes completam o cenário.

Fruto do movimento modernista, a região do Plano Piloto é uma obra de arte a céu aberto e está inserida em um movimento de renovação do urbanismo internacional, explica. Cidades como Nova Delhi, na Índia, e Camberra, na Austrália, são também expoentes desse movimento, explica Coutinho. “Foi uma criação excepcional pela sua ambição”, diz.

O mérito é do arquiteto Lúcio Costa, que há 60 anos venceu o concurso para a escolha do projeto arquitetônico do Plano, em disputa com outras 26 propostas.

Coutinho ressalta que Brasília foi fruto do esforço de milhares de pessoas, “uma tarefa gigantesca da qual participaram muitas figuras de talento excepcional que acreditavam num futuro grandioso da cidade.”

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