Wilton Junior/Estadão
Wilton Junior/Estadão

Desgaste por relatório do Coaf deve fazer Bolsonaro apostar em Guedes e Moro, diz analista

'Durante os seis primeiros meses, gestão deverá se apoiar fortemente em ações com cunho mais midiático destes dois superministros', avalia analista político

Caio Rinaldi, O Estado de S.Paulo

13 Dezembro 2018 | 12h11

O desgaste provocado pela denúncia do Conselho de Controle de Atividades Fiscais (Coaf) sobre o futuro governo de Jair Bolsonaro deverá fazer com que o presidente eleito aumente a aposta na atuação de seus dois "superministros" - Paulo Guedes, da Economia, e Sérgio Moro, da Justiça. A avaliação foi feita pelo analista político Ricardo Ribeiro, da MCM Consultores, durante debate promovido pelo Grupo Estado em parceria com a Fundação Getulio Vargas (FGV).

"Após a divulgação do relatório do Coaf, Bolsonaro passou a contar com menos bases realmente sólidas de sustentação. Acredito que, durante os seis primeiros meses, sua gestão deverá se apoiar fortemente em ações com cunho mais midiático destes dois superministros", comentou Ribeiro. "O Paulo Guedes pode apresentar resultados importantes na economia, enquanto Moro poderá demonstrar avanços na segurança pública e combate à corrupção", explicou o analista.

O futuro governo de Jair Bolsonaro traz consigo uma "grande incerteza do modelo pela grande renovação", afirma o pesquisador da Escola de Administração da Fundação Getulio Vargas (EAESP-FGV), Fernando Abrucio. A renovação, avalia, se dará no estilo de governo, na composição dos quadros de sustentação de seu governo, assim como nas próprias ideias políticas que pretende apresentar e suas várias ambiguidades. A avaliação foi feita durante debate promovido entre o Grupo Estado e a FGV.

"O programa de Bolsonaro vai ser montado quando ele e sua equipe assumirem o governo", declarou. Diante da urgência para a aprovação de reformas estruturais da economia, o professor entende que Bolsonaro não poderá inundar a pauta legislativa no início de governo. "O prazo para aprovar medidas importantes é outubro de 2019. Quanto mais assunto colocar na pauta política, mais difícil ficará", disse. Abrucio enxerga divisões importantes na "linha de frente" do futuro governo. "São sete grupos organizados e intercambiáveis entre si", comentou.

O primeiro grupo é a própria família Bolsonaro, que tem suas ambições de poder. Também foram citados os militares, o núcleo encabeçado por Guedes, o núcleo Moro, o núcleo político liderado por Onyx Lorenzoni, o PSL e as frentes parlamentares. "A relação entre esses grupos vai definir muita coisa no governo", ressaltou.

Congresso. A disputa pela eleição da Presidência da Câmara é um fator determinante para o sucesso do governo de Jair Bolsonaro e o avanço da agenda de reformas que dependem do Congresso, avalia Abrucio. "O embate entre os diversos grupos de sustentação do governo Bolsonaro pela Presidência da Câmara é um ponto essencial. A maneira como esta disputa vai se resolver é determinante, pois o governo pode apoiar um nome que talvez não ganhe a eleição", disse.

O pesquisador citou a candidatura do atual presidente da Câmara, Rodrigo Maia, como exemplo de como o ritmo da pauta legislativa pode ser afetado. "Se Maia ganhar a eleição com apoio dos "outros" - fora da base de Bolsonaro -, ele poderá mudar o timing de sua atuação para atender a outros interesses", afirmou. "É claro que Maia sabe da necessidade da agenda econômica e não vai inviabilizar, mas pode não tocar a pauta da maneira como gostaria o governo", comentou.

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