Desembargador afastado diz que precisa 'por a cabeça para pensar'

Ele é acusado de pedir R$ 35 mil de advogados para votar favoravelmente em recurso de interesse de um vereador de Bragança Paulista

Fausto Macedo , O Estado de S. Paulo

03 Abril 2013 | 18h02

SÃO PAULO - "Eu confesso que fui apanhado de surpresa com isso", declarou o desembargador Arthur Del Guércio Filho, sobre a denúncia de que pediu R$ 35 mil dos advogados Nagashi Furukawa e Fabiane Furukawa para votar favoravelmente em recurso de interesse de um vereador do município de Bragança Paulista (SP).

"Não sei nem o que dizer. Preciso de algum tempo para pensar sobre tudo o que ocorreu e para que eu tenha acesso aos documentos. Não tive acesso a nada até agora."

Del Guércio Filho nega que tenha solicitado propina dos advogados. "Isso não tem o mínimo fundamento. Eu recebo todos os advogados em meu gabinete de forma rotineira. Não tenho nenhum tipo de restrição com relação a isso, a receber advogado."

Sobre a suposta credora que o estaria pressionando, o desembargador Del Guércio Filho também refutou a denúncia. "Eu não sei de onde quiseram tirar isso. É tudo coisa que eu nem sei o que é. Eu não sei quais foram as alegações para o meu afastamento, não sei quais são os fundamentos."

Aos 58 anos de idade, desde 1983 na magistratura paulista, juiz de carreira, Del Guércio Filho chegou ao TJ em 2005, quando assumiu cadeira de desembargador. Ele está na 15.ª Câmara de Direito Público desde 2007. Sob sua relatoria mantém acervo de 1.800 processos. Em 2012 fez dois mil votos.

"Eu não quero que deturpem as coisas, para que não fique pior que já está", disse o desembargador. "Estou sendo pego de surpresa por isso preciso por minha cabeça para pensar. São 30 anos de dedicação à magistratura que estão jogando no lixo."

Del Guércio disse que é alvo de "rito sumário" e que "nunca viu" um procedimento tão célere, como no seu caso. "Não tive acesso a esse voto (do presidente do TJ, desembargador Ivan Sartori, que pediu seu afastamento cautelar).

"Levaram a denúncia ao Órgão Especial sem sequer me perguntar o que tinha acontecido, sem sequer me dar uma chance de falar ou de contra argumentar, alguma coisa assim, nesse sentido."

O desembargador destaca que o episódio no qual se vê envolvido é relativo a um vereador do município de Bragança Paulista que teria sido condenado pelo Tribunal de Contas do Estado a devolver uma "determinada importância" aos cofres públicos.

O recurso do vereador foi distribuído para a 15.ª Câmara de Direito Público, colegiado integrado por Del Guércio. "Meu voto foi a favor dele (vereador), mas ele perdeu por dois a um. Minha tese saiu vencida. É uma questão técnica, posição é técnica."

O desembargador admite que conversou com o advogado Nagashi Furukawa, ex-juiz de Direito aposentado que representava o vereador. "Falamos sobre isso (sobre o recurso da defesa), posso ter cometido algum deslize vamos dizer assim de falar que alguém estaria julgando de outra forma. Eu defenderia o meu posicionamento, como fiz. Daí a ser acusado de pedir propina estou achando muito estranho. Mas, enfim a vida é cheia dessas coisas. A verdade prevalecerá. Em nenhum momento fiz qualquer solicitação de dinheiro. São coisas...eu emprego palavras e você dá a interpretação que quiser."

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