Amanda Perobelli/Reuters
Amanda Perobelli/Reuters

Desculpe aí alguma coisa

É o que estão dizendo o governo, os seus pedagogos e os seus médicos, que não deixaram as crianças e jovens terem aulas este ano, alegando que corriam risco de morte em função da covid-19

J.R.Guzzo, O Estado de S.Paulo

11 de novembro de 2020 | 14h40

Nada como um bom decreto para declarar que um problema não existe, sobretudo aqueles problemas que ninguém sabe como resolver; os responsáveis acham que foi encontrada “a melhor saída”, absolvem a si próprios de quaisquer culpas e adquirem a custo zero uma consciência  tranquila. No caso, o decreto foi uma “resolução” do “Conselho Estadual de Educação”, para quem o governo do Estado de São Paulo terceiriza as questões do ensino fundamental e do ensino médio no Estado. “Os estudantes de todos os anos do ensino fundamental e da primeira e segunda séries do curso médio devem ser matriculados no ano/série subsequente em 2021 em regime de progressão continuada”, acaba de decretar a bula papal do CEE. Ninguém aprendeu nada em 2020, porque as escolas estiveram fechadas, mas todo mundo passa de ano. “Então fica tudo resolvido, certo? Desculpe aí alguma coisa”.

É o que estão dizendo o governo, os seus pedagogos e os seus médicos, que não deixaram as crianças e jovens terem aulas este ano, alegando que corriam risco de morte em função da covid-19. A medida foi ao mesmo tempo totalmente inútil no tratamento da epidemia (na Europa, em média, as escolas ficaram menos de dois meses fechadas) e arrasadora do ponto de vista da educação – a garotada, pura e simplesmente, perdeu um ano, que não vai ser recuperado nunca. É tudo, mas tudo mesmo, que o Brasil não precisava. A qualidade e os resultados da educação brasileira estão entre os piores do mundo; agora o abismo que já existe em relação aos países melhor sucedidos fica maior ainda. Não se pode, realmente, fazer mais nem melhor do que isso, em matéria de promover a desigualdade, a injustiça e a concentração de renda.

Pouco se fala, mas uma decisão calamitosa como essa foi tomada de maneira abertamente totalitária. Quem decidiu que os alunos iriam ficar sem aulas, no começo do ano, foram os sindicatos de professores – que a população não elegeu e a quem não deu o direito de fazer o que fizeram. Tiveram, é lógico, a concordância de governos assustados, oportunistas e incapazes de defender os cidadãos que os elegeram para os seus cargos. Também contaram com a bênção dos especialistas médicos que defendem o “distanciamento social”, e que igualmente não tiveram voto nenhum, de ninguém, para decidir nada. Enfim, foram apoiados por uma parte dos pais. Mas e daí? O resultado concreto é que se recusaram a dar aulas durante um ano inteiro, e foram plenamente atendidos.

Agora, todos saem felizes: os governantes, as autoridades públicas, os professores, os intelectuais, os pais de alunos (mesmo os que pagaram fortunas neste ano, em escolas particulares, para os seus filhos não receberem ensino praticamente nenhum) e até os estudantes, que não vão ter de repetir de ano. Só que serão eles mesmos que terão de pagar essa conta mais tarde – eles e a sociedade brasileira, que neste ano de 2020 torrou em educação, a troco de nada, o equivalente a 120 bilhões de dólares, ou 6% do seu PIB. Qual é o problema? No Brasil de hoje está sobrando dinheiro, não é mesmo?

* JORNALISTA

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